Existe um provérbio chinês muito conhecido que diz o seguinte: “É muito fácil ser pedra, o difícil é ser vidraça.”

 

Resolvi começar a série de textos que pretendo escrever por aqui em primeira pessoa. Começar por mim e pelo o que deve me nortear ao longo do desafio que é se colocar diante de questões que envolvem a cidade e a sociedade e depois arriscar um “nós”, para falar um pouco sobre como eu acredito que isso reverbera entre a gente, moradores de um mesmo espaço, de um espaço complexo.

Toda vez que precisamos tomar uma posição para discutir um assunto, e por aqui eu devo tomar algumas, temos a possibilidade de fazer isso sem ser uma pedra e sem tomar as dores de uma vidraça. E qual a importância de tomar este cuidado? Qual a relevância de discutir primeiramente isso e usando uma metáfora quase banal?

É simples, o provérbio já responde por si mesmo: ser pedra, em qualquer situação, é sempre mais fácil. Ser pedra significa atacar sempre. Atirar acusações, afirmações sem pensar, ser inconsequente, precipitado. O objetivo é destrutivo em primeiro lugar. Se do ataque nascerem coisas boas, é lucro mal calculado, ou sorte. Quem já foi pedra? Eu já fui mil vezes em situações diversas, faz parte do instinto querer se defender do que consideramos uma ameaça. Porém, se em uma situação extrema, atirar pedras ajuda, em situações que envolvem o exercício da cidadania, agir feito pedra pode causar sérias consequências.

Em momentos complicados como o que estamos vivendo, todos viramos pedra  inconscientemente, e isso geralmente aumenta o grau de intolerância e desrespeito. Vira uma guerra sem vencedores. Para exercer a cidadania, é preciso se equilibrar um pouco em meio aos cabos de guerra traçados e esta linha de equilíbrio é bastante tênue. Não é não tomar partido e se dizer neutro. A neutralidade é uma ilusão e uma também tomada de posição bastante clara. Mas é saber fazer isso com responsabilidade acima de tudo, com embasamento, de maneira construtiva.

Olhando para o nosso cenário municipal, temos uma gestão iniciando o mandato com várias questões importantes em todas as áreas que merecem nossa atenção. Não ser pedra neste caso significa apenas não agredir por antecipação ou por vício e ser crítico com o que é necessário, cobrar o que é dever e promessa, fazer-se presente como cidadão, é não permitir que gestão alguma se esconda atrás do estigma de ter se transformado numa pobre vidraça perseguida e injustiçada. Tais estereótipos apenas criam e facilitam manipulações dentro de um sistema político – o nosso- que é absurdamente viciado em péssimos hábitos.

Observo de longe o mar de pedras que nossos exercícios de cidadania – ou o que julgamos que sejam- criaram: terminamos o ano de 2016 acabando com uma gestão -que merecia críticas em muitos pontos sim, mas que também teve boas iniciativas que não podem ser anuladas- e iniciamos 2017 no mesmo ritmo das pedradas, alimentando falsas notícias por impulso, julgando com precipitação o que precisa ser olhado com calma.

Mudou o foco, mas o jogo não mudou. Os muros só crescem entre grupos que pensam diferente. Dialogar é quase impossível porque ninguém quer escutar ninguém, ou quase ninguém.  A escuta é seletiva e o diálogo também. A vidraça é outra. E mudou quem joga as pedras. Aí tudo se perde para recomeçar de novo e durar mais 4 anos. Burrice. Perdemos nós sempre. Precisamos parar. A diferença agrega e gera reflexão entre todos desde que não estejamos apenas interessados em termos benefícios pessoais diretos e intransferíveis com determinadas situações. A construção coletiva só se dá com continuidade e isso requer que saibamos agir além das nossas ideologias pessoais, mirando o que é de interesse comum. Difícil? Muito.

Entre pedras e vidraças fica a tal cidade que queremos viver. Para discutirmos com efetividade suas questões precisamos ser cidadãos independentemente do contexto que se apresenta. É preciso desejar o melhor sempre e não somente quando um determinado grupo governa. Não é simples, mas é assim que se constrói a cidadania de verdade, aquela que a gente almeja, com o significado que queremos que ela tenha. Precisamos encontrar a forma de mudar o vidro de lugar sem tanta violência, de receber e encarar a mudança sem precisar também quebrar ou rachar por demasiada resistência ou orgulho, sem tantos muros. Aí sim acredito que o patamar de qualquer discussão irá se elevar, porque os objetivos maiores serão os interesses coletivos e não os pessoais.

Por aqui, farei meu possível para cumprir meu papel: olhar atento ao que ajuda/ olhar atento ao que só quer atrapalhar por conceito/ Não ser pedra, baixar a guarda. Baixem também. /Não permitir a vidraça. Não permitam também/ Cobrar responsabilidades, cobrar explicações. / Ser capaz de escutar. / Ser capaz de ponderar. /Ter embasamento para falar, para evitar injustiças e o compartilhamento de informações tendenciosas/ Ser crítica. Ufa.

Espero ser útil e lúcida. Desejem-me sorte, porque ela também agrega e por vezes, quando nos falta sabedoria, precisamos dela. Espero ajudar e espero que vocês me ajudem também e que isso reverbere entre todos nós da maneira mais positiva possível.  Acho que cidadania é isso afinal, pegar as danadas das pedras para construir pontes.

 

Marília Scarabello é artista visual e fotógrafa. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especializou-se em Cenografia Teatral no Espaço Cenográfico e é mestranda em Artes Visuais pela Unicamp. Como artista visual possui um trabalho que transita entre a fotografia, arquitetura, intervenções urbanas e instalações.

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Convidamos colunistas para fortalecer o debate sobre os principais temas e questões públicas de Jundiaí. As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Movimento Voto Consciente Jundiaí.
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