Honrada e talvez um tanto surpresa ao ser convidada a colaborar como articulista no site do Movimento Voto Consciente de Jundiaí, prontamente aceitei. É a primeira vez que escrevo para um espaço específico. E aceitei porque acredito que o coletivo conquistou o respeito da cidade de Jundiaí por promover, a meu ver, dois elementos essenciais que nos fazem caminhar e reinventar nossos percursos: o diálogo e um espaço democrático para exercício da cidadania.

“O tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim. ” (Lina Bo Bardi). Uma das minhas frases de cabeceira, não me deixa esquecer da minha pequenez perante a natureza, ao tempo e ao espaço, a história. Eu não fico, eu passo. E tenho aprendido com essa única certeza a perder o medo e a insegurança de me expor. A exposição é um desabrigo que pode doer, a reserva é uma prudência que pode ser mais confortável. Opto aqui, em me expor. Sim, porque vou escrever sobre questões da cidade e através dela, posso ser eu.

Irei até ela, ou a um pedaço dela, a muitas delas, juntas ou separadas…A cidade que tanto fascina.

Saí do me quintal e fui por um quarteirão, pelo bairro onde moro, tentando, dessa vez, conhece-lo como se não nos tivéssemos sido ainda apresentados, mais de perto, com um olhar mais atento. Segui pela avenida do rio, registrando os primeiros incômodos da caminhada: a água aparentemente poluída, o asfalto que margeia o rio dando preferência aos carros, a calçada de um lado só, não tão estreita, mas com buracos, degraus e rampas que deveriam estar para dentro do espaço privado, fazem com que eu tenha que dividir minha atenção entre olhar ao redor e para o chão.

Há quantas andam as ações de despoluição desse afluente do Rio Jundiaí, que recentemente, após o longo período de trinta anos, temos notícia de que está saudável? Tropeço num degrau fora do lugar e penso que melhorar nossas calçadas, nos ajudará a caminhar podendo olhar ao redor.

Senti o sol incomodar e me dei conta que não há uma única sombra até chegar ao cruzamento da avenida do rio com a rua do hospital, no espaço de três quarteirões. Com o projeto das calçadas, traremos também as árvores.

Direciono meu caminho, na bifurcação, à esquerda, subo três degraus, acesso a estreita ponte metálica e observo uma pequena praça-esquina, mas daquelas que são praça apenas no nome, pois só servem para passar.

Ainda na ponte, parei para olhar o curso do rio, como costumava fazer no tempo de criança, com a esperança que através e por causa dele, o bairro pudesse ter outra vida, melhor que agora.

As enchentes sofridas durante muitos anos não existiam mais, porém com a forte chuva do verão, o lixo que jogamos nas ruas, o esgoto que não tratamos, a poluição que descuidamos, a permeabilidade que não deixamos, assistimos a avenida virar rio.

O verão e a chuva passaram, mas nós esquecemos rápido os problemas, entramos nos afazeres do dia a dia e escolhemos o asfalto do lado do rio e nós, dou outro, no passeio sem sombra. Paro um pouco para observar um desvio do rio, enclausurado entre dois fundos paralelos de construções que externam seus canos de pvc, disfarçados na mata sobrevivente.

Continuei meu trajeto na contramão do carro e o calor foi amenizado ao ladear os jardins das casas vizinhas à extinta indústria do extrato de tomate do elefante.

Com o sol de novo apertado, passei em frente ao mercado atacadista, à loja de materiais de construção, por dois ciclistas na mão certa, porém, na calçada larga, protegida da rua movimentada de carros.

Virei à esquerda, já no caminho de volta, e cheguei a mais dois pedaços do rio, um de cada lado da rua. Ali, aquele lugar, me convidou a ficar por mais tempo, olhando mais uma vez o curso d´água, o lixo jogado na base e concreto e o mato que dele nasce, um trecho de mata ciliar, o desenho do guarda-corpo antigo, poucos carros passando, uma pessoa caminhando ao celular, o ponto de ônibus vazio, pensando como fazer para chegar lá, no começo, no Parque Linear do Rio Guapeva.

 

Paula de Castro Siqueira é arquiteta e urbanista, formada pela FAU – PUC Campinas, sócia da eto arquitetura e urbanismo. Atual presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Núcleo Aglomerado Urbano de Jundiaí (gestão 2017-2019) e do Conselho de Gestão da Serra do Japi (gestão 2015-2017), representando o IABau. Membro do Grupo de Trabalho do CAU/SP – Estatuto da Metrópole.

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Convidamos colunistas para fortalecer o debate sobre os principais temas e questões públicas de Jundiaí. As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Movimento Voto Consciente Jundiaí.
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