Quando, nas eleições de 2014, saíram notícias de que o congresso eleito era o mais conservador desde 1964 (https://goo.gl/5voyA3), ano que se iniciou a ditadura militar no Brasil, foi denunciado o que viveríamos: uma alta no conservadorismo no Brasil. E não deu outra, diversos projetos com esse pensamento foram propostos e votados na câmara dos deputados. Um em especial me chamou muito a atenção e precisamos dialogar profundamente sobre como e por quê ele existiu: o escola sem partido.

Muitos já ouviram falar desse movimento que rodou as esferas federais, estaduais e municipais, todas com o mesmo objetivo: buscar a neutralidade política, ideológica e moral dos professores e consequentemente, do conhecimento. Esse discurso surge com a ideia de que nas escolas públicas brasileiras acontece uma doutrinação política-partidária voltada para ideais da esquerda. Além disso, afirma que o conhecimento é neutro, e quando não for, mostrar todas as vertentes possíveis daquela situação. Esses problemas se remetem diretamente ao ensino das Ciências Humanas, como filosofia e história, que é onde mais ocorre tal doutrinação. Artigos e falas que criticam e desenvolvem argumentos dentro das Ciências Humanas e do ensino delas podem ser encontradas em múltiplos lugares na internet. O que me interessa, aqui, é apresentar uma visão que ainda não foi muito explorada: como as Ciências Naturais e o ensino de Ciências argumenta contrariamente a tal projeto.

O pensamento científico dominante hoje, que também está presente no senso comum quando falamos sobre conhecimento, é que a ciência produz um conhecimento neutro e sem interferência política e ideológica. Esse pensamento pode ser historicamente relacionado com o avanço do indutivismo e do positivismo científico, conceitos que não pretendo desenvolver nesse artigo. O que precisamos saber é que, com o decorrer da história, reforçamos cada vez mais que a Ciência produz um conhecimento puro, natural e neutro. Isso não é verdade. A Ciência é o resultado da interpretação humana dos fenômenos naturais, e a tecnologia gerada pela Ciência é a forma que moldamos o mundo material para facilitar nossa vida, e como construímos o conhecimento científico e como elaboramos as nossas tecnologias são intrinsecamente dependentes da interpretação humana, e tal interpretação sempre carrega consigo seu caráter histórico, ideologico e cultural do cientista. Normalmente, a Ciência ofusca sua parcialidade usando de argumento o uso do método científico. E quando defendemos uma ideia de neutralidade do conhecimento, tanto na sua construção quanto no seu ensino, estamos na realidade defendendo um pensamento: o dominante, o da manutenção do modelo vigente social e político. Tanto na atual produção científica, que raramente é refletida e gera um conhecimento extremamente específico que não dialoga, quanto no ensino de ciências, que precisa fugir tanto do criacionismo quanto do cientificismo. A Ciência e seu ensino precisam entender que fazem parte da sociedade e que interferem diretamente na cultura, e que a neutralidade também não se aplica nesses casos.

O conservadorismo avança galopantemente, no Brasil e na cidade de Jundiaí, e projetos como o Escola sem Partido continuarão a ser defendidos se não pensarmos claramente e abertamente sobre o que buscamos na educação. Obviamente, não queremos uma escola única e hegemônica. Paradoxalmente, isso é examente o que tal projeto busca.

Matheus Naville Gutierrez é professor de Ciências e Biologia, formado pela UNESP – Campus de Botucatu. Atualmente faz parte do programa de pós-graduação multiunidades em ensino de Ciências e Matemática pela UNICAMP. Participou de movimentos estudantis e educacionais, e hoje atua na ONG Cursinho Professor Chico Poço.

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Convidamos colunistas para fortalecer o debate sobre os principais temas e questões públicas de Jundiaí. As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Movimento Voto Consciente Jundiaí.
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