Por amor, sem rancor

Escrevo em nome da poesia e da arte. Menos pelos dotes pessoais, mais pelos compromissos de cidadão. Não me interessam a filosofia nem a política institucional. Os partidos, da direita à esquerda, com raras exceções, se renderam à tirania do capital, preferindo hidrelétricas e petróleo, especulação imobiliária e acumulação financeira, em vez de decência e boniteza ou a defesa das pessoas e suas condições culturais de vida, como sempre alertou meu mestre, Paulo Freire.

Quero falar como integrante do cosmo. Não me interessa defender a sustentabilidade, um placebo do capitalismo, discurso vazio utilizado para invadir territórios sagrados. Quero falar como irmão dos bichos e das plantas. O que me interessa é o que mais interessa. Tenho certeza, também à grande maioria. O que não é de ninguém não pode ser de alguém: a vida em sua diversidade. O barulho ensurdece, a agitação afoba, a invasão do espaço amedronta. Estradas, correria, automóveis, aviões, assustam os pobres e indefesos companheiros de jornada que estão perto de nós. Nós fazemos isso.

Quero falar pelos situados naquela que foi motivo de canções. Falo junto com outros amigos e entidades. Os sapos, as pererecas e as rãs. As serpentes, lagartos e cobras. Os veados, jaguatiricas, suçuaranas, ouriços, tatus, macacos, sagüis, morcegos, capivaras, ratões do banhado, gambás. As aranhas, formigas, os louva-deus, as taturanas. O João de barro, as jurutis, os beija-flores, os bem-te-vis, os pica-paus, a mãe da lua, o andorinhão, os tucanos, as arapongas, pavós, saíras, surucuás. A Maria preta de bico azulado, o sanhaço, o gavião, a jacutinga e o urubu rei. Essas espécies não acumulam nos bancos. Vão para terra sem deixar descendentes ávidos pelo controle “natural”, darwinista, dos bens que o universo nos proporcionou. Apodrecerão como todos nós, mas sua etereidade será melhor absorvida pelo transcendente, porque livres de pecados mortais, de maldades e usurpações. Falo por aquele que me gerou e viveu boa parte da vida na serra.

Sinto muito por não falar em nome dos que supõem poder balancear avanço econômico, urbanismo e preservação ambiental. Engano pensar que podemos adiar esse processo de descalabro com uma “ética mínima”, já que não pode haver ética sem política (a ética máxima). Temos todos que nos situar longe dos interesses menores da filiação partidária, para, livres do purismo, do fundamentalismo, do sectarismo, da falta de historicidade, defender uma causa que é patente: a fauna e a flora de um trecho de mata atlântica que nos circunda. Por nós mesmos, por todas essas espécimes citadas acima, pela nossa boniteza, pela nossa decência. Não por razões legais, econômicas, ideológicas. Não movidos por ódios. Por uma simples razão: estamos ameaçados em nosso potencial de bondade.

About Polli José Renato

Doutor em Educação (FEUSP). Professor Universitário. Autor de "Paulo Freire: o educador da esperança" (In House).