Para algumas pessoas, geralmente bastante confortáveis em seus carros durante o trajeto entre a casa o trabalho, os problemas da cidade passam despercebidos. Para outras, a cidade mostra, sem filtros, suas desigualdades e dificuldades a todo momento pelas janelas dos ônibus.

Enquanto para alguns Jundiaí é uma cidade insegura e abandonada, para outros – e eu me encontro entre estes – ela é satisfatória e repleta de possibilidades, mesmo com todas as suas adversidades. E ainda há muitas outras ‘Jundiaís’ entre nós.

O que quero dizer é que a concepção sobre o espaço em que vivemos é moldada a partir das nossas experiências diárias, informações acessadas e privilégios – como ter rua asfaltada, água encanada ou morar em uma região com comércios, escolas e outros serviços úteis.

Essa consciência sobre as diferentes dinâmicas dentro da cidade deveria ser óbvia e comum a todos, mas é intensamente subvertida por empreendimentos que vendem falsas sensações de segurança e conforto, dando vida à fantasmas urbanos que nos assombram diariamente.

Ao mesmo tempo, temas como mobilidade, saúde, educação e cultura continuam indignos de atenção por grande parte da população – que apesar de clamar por mudanças e depositar críticas nas redes sociais, segue inerte nos espaços de discussão pública.

Para além deste problema crônico da população, as transformações econômicas e sociais que a Jundiaí enfrentou nos últimos anos dificulta o debate ampliado e participativo, além da consequente busca por soluções para as questões comuns que permeiam a vida na cidade.

Somente a partir da reflexão sobre o espaço que ocupamos, ou em qual Jundiaí vivemos, é que vamos entender as necessidades coletivas e setoriais, assim como os caminhos para solucionar as falhas estruturais na construção da cidade e de nós mesmos, habitantes e mantenedores desse lugar.

É hora de virar a página, entender como a cidade funciona e abrir os olhos para as novas possibilidades – pois devo dizer, prezados jundiaienses, a nossa terra querida já não é mais a mesma, ainda bem!

 

Gustavo Koch é jundiaense, produtor e comunicador cultural, e está Conselheiro Municipal de Política Cultural

Operários da indústria “S. Paulo Arens & Cia Jundiahy (início do século 20) – Acervo Centro de Memória de Jundiaí

Fico muito grato pelo convite para ser um dos articulistas do site do Movimento Voto Consciente, pois participar do debate político, mediante a participação nas publicações é uma oportunidade de buscar aproximações e entendimento de aspectos da realidade histórica contemporânea no contexto em que vivo.

Por conta da minha formação e por escolha minha intenção é sempre que possível articular os textos a partir da História. Sendo assim, nesse primeiro texto busquei rememorar como fui descobrindo dimensões da história de Jundiaí.  Assim como uma parte significativa da atual população de Jundiaí que é proveniente de outras cidades brasileiras, minha família é de Alfenas, no Sul de Minas e moro em Jundiaí há cerca de 16 anos.

Por conta de irmãos mais velhos já morarem na cidade, desde o início da década de 1980, carrego lembranças do nome da cidade Jundiaí da minha infância.  A lembrança mais antiga que tenho é possivelmente com uns 05 anos ver uma lata do extrato de tomate CICA no supermercado, em Minas, e ficar orgulhoso por relacionar que meus irmãos estavam trabalhando na mesma cidade em que a era produzido o extrato de tomate de uma marca tão conhecida! Desde essa época, já tinha a imagem da Jundiaí do trabalho e da busca de oportunidades.

Paralelamente, por conta dos meus irmãos trazerem uvas e vinhos de Jundiaí para a família, fiquei com a imagem da Jundiaí marcada pela imigração italiana, imagem que só foi modificada depois um tempo morando na cidade.

Para isso um momento importante foi, no antigo prédio da Biblioteca Municipal, onde hoje funciona a Pinacoteca Diógenes Duarte Paes, a leitura do livro da Série Memórias vol. 03, escrito pelo historiador e arqueólogo Walter Morales: A escravidão esquecida.

Lembro-me que fiquei impressionado por essa outra dimensão da história de Jundiaí: a presença da escravização de indígenas e africanos na região.   Na maioria das vezes, quando comentava em sala de aula ao abordar História do Brasil no Período Colonial no Ensino Médio, o estranhamento referente a isso era geral.

Posteriormente, como historiador e educador no Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, no período de 2013 a 2016, vi que isso é algo bastante comum para a maioria das pessoas, sejam nascidas aqui ou que vieram de outros lugares: desconsiderar a historicidade da presença da matriz indígena e africana no contexto da história local.

Nesse sentido, a meu ver, discutir se a data de fundação de Jundiaí é 1615 ou 1655 é ainda uma visão eurocêntrica da História do Brasil, pois desconsidera que a presença humana, na região da Serra do Japi, é da ordem de 6000 a 8000 antes do presente, segundo atestam registros arqueológicos que compõem o acervo do Museu Histórico e Cultural.

Associar os “primórdios” da História de Jundiaí a uma origem do bandeirantismo é semelhante à ideia de um “mito de origem”, uma visão de história factualista e e exclusivamente elitista que predominou no círculo letrado no Estado de São Paulo, na primeira metade do século 20, reflexo de um contexto intelectual da historiografia brasileira daquela época. Não obstante, essa perspectiva ainda fazer parte dos horizontes de discussão sobre a história local.

Em relação às visões da História de Jundiaí que estão presentes no imaginário social, tenho a impressão que após a “origem bandeirante” dá-se um salto para a imigração. É inquestionável a importância da imigração, no caso de Jundiaí, com destaque para a imigração italiana a partir da criação do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, importante iniciativa do governo da então Província de São Paulo, no fim do período imperial.

No entanto acredito ser inegável a supressão da historicidade indígena e africana na história local. Comumente desconsidera-se a presença marcante da matriz indígena, que já vivia na região antes do período da interiorização da colonização, época em que o “Mato Grosso de Jundiahy” era uma das “portas do Sertão” da imensa área da América portuguesa.  Também o fato de que Jundiaí chegou a ter mais de um terço da população composta pela matriz africana, no contexto da expansão da lavoura de cana-de-açúcar e depois do café, a partir do final do século 18 e meados do século 19. A existência da Igreja de N. S. do Rosário dos Homens Pretos, demolida em 1922, e a fundação de um dos clubes sociais negros mais antigos do Brasil, em 1895, o Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro atestam a importância da matriz africana na cidade.

A visão parcial e elitista também está presente em relação a própria imigração, desconsiderando por exemplo, o fato de Jundiaí ser no começo do século 20 um importante centro de irradiação das ideias anarquistas, presentes no início da organização das lutas dos trabalhadores no Brasil.

Vejo que minha relação de empatia pelo estudo da história de Jundiaí tem a ver com fato de considerar que aqui a dimensão da história do Brasil está presente em matizes mais fortes, com todas as suas contradições e embates.

 

Alexandre Oliveira é historiador e educador. Licenciado em História pela UFOP e Mestre em Artes pela Unesp. Mineiro que descobriu em Jundiaí que o pão de queijo fica “bão tamém” ao ser feito com queijo parmesão.