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A Casa Rosa, o Centro Histórico e o “sei lá” – nossa relação com o passado

Publicada em 25/05/2018 às 11:10 | por Comunicação Voto Jundiaí

por Samuel Vidilli


Vira e mexe, o assunto é preservação do patrimônio. E, de soslaio, alguns olhos se voltam à antiquíssima Casa Rosa, ao lado do Polytheama.

Há um farto material sobre essa casa, antiga propriedade da família Malpaga. Sua beleza chama a atenção. Segundo texto disponível em site da prefeitura, “Trata-se de um modelo exemplar dos métodos construtivos trazidos pelos capomastri italianos que se instalaram em Jundiaí nos séculos XIX e XX, como o emprego de tijolos maciços em barro, até o momento desco nhecido no Brasil, e a presença de frontão triangular, alpendre lateral com arcos e colunatas e de coloração rosácea. Observam-se também elementos do ecletismo, parte integrante e indissociável da identidade arquitetônica jundiaiense, e da Vignola, releitura italiana da arquitetura neoclássica”.

De fato, é uma casa que chama a atenção pela beleza de suas linhas e elegância. Entretanto, mesmo sendo um imóvel tombado pelo Município, a realidade é que ele está lá, abandonado, em franco processo de deterioração.

Ninguém se dispõe a desatar esse nó górdio: os edis fazem vista grossa, mesmo sendo obrigados a passar ao largo dessa casa ao saírem da Câmara Municipal. Prefeitos agem como verdadeiros Pilatos. Pequena parte da população lembra, esquece, lembra de novo a importância da preservação. Grande parte não sabe do que se trata esse debate todo. E, finalmente, o proprietário está pacientemente esperando que o imóvel desabe pelo peso do tempo e má preservação para ou vender o valorizado terreno ou fazer daquele local mais um árido estacionamento.

Mas o que fazer? Como fazer? 

Num desses momentos de defesa visceral da Casa Rosa alguém sugeriu que o imóvel poderia transformar-se em um local de encontro, centro de lazer, um café, “sei lá”. A área seria um prolongamento das sessões do Polytheama, onde as pessoas pudessem sentar e discutir o que foi exibido. Sei lá.

Segundo ainda quem defende isso, todo mundo sairia ganhando: poder público, que ofereceria um espaço a mais para seus munícipes. E quem explorasse o local também. Até mesmo o proprietário, que receberia uma parte do lucro. Sem falar em uma isenção do IPTU.

E como fazer isso? Sei lá…

E é aí que está o grande ponto. Esse “sei lá”. Ninguém quer ceder, entrar na briga até o fim. Ou mesmo fazer uma reflexão sobre o que realmente importa.

Eu, particularmente, adoraria mais um espaço de cultura. Ainda mais em tão belo imóvel. Ainda mais porque nosso Centro Histórico tem cada vez menos importância histórica na vida da cidade e cada vez mais carros e comércio popular que, ao fechar suas portas às 18 horas, dá lugar à prostituição, sujeira, abandono.

As administrações tentam fazer algo por essa região. Mas sei lá.

Miguel Haddad, em sua primeira gestão, iniciou as obras de revitalização. Enterrou fios, acabou com postes… mas sei lá. Parou entre a Rua da Padroeira e a Praça Rui Barbosa (antigo Largo do Pelourinho, como bem indica o amigo José Arnaldo de Oliveira).

Ary Fossen incentivou renovação e padronização de fachadas, e por algum tempo isso funcionou…mas sei lá.

Pedro Bigardi promoveu parklets e oficinas de mobiliário urbano, mas sei lá. E o Glória Rocha, que está parado?

Todas essas ações se mostram ainda interessantes, mas infelizmente não surtiram efeito algum em envolver efetivamente a população e fazer com que se apropriassem do Centro Histórico. E eu posso falar com propriedade: de meu apartamento vejo tudo. Todos esses projetos (todos, repito) parecem abandonados ou não continuados.

Honestamente, nem penso que é culpa dos atuais gestores da cidade. Pelo contrário. O Museu Histórico e Cultural (Solar do Barão), por exemplo, nunca esteve tão bonito. Seus jardins são a última resistência da degradação total.

A questão é todo o “sei lá” mesmo. De todos nós. Todo o respeito à Casa Rosa, mas o Solar, Glória Rocha, todo o Centro Histórico merece o mesmo carinho, atenção e engajamento de todo mundo. Falta nos sentirmos pertencentes à cidade. Falta aos edis comprar briga. Falta aos prefeitos darem continuidade aos projetos que já existem. E falta a todos nós, população, pertencer, ocupar e defender tudo o que é nosso. E não apenas uma casa.

E que não haja mais nenhum “sei lá”. 


Texto: Samuel Vidilli – sociólogo, professor, colaborador do Voto e morador apaixonado pelo Centro de Jundiaí.

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