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A crítica pela crítica?

Publicada em 15/03/2012 às 00:57 | por Polli José Renato

O que é prático e objetivo está distante do que se pensa? O que se faz concretamente está longe do que se imagina deveria ser? Quando se diz que fácil é falar e difícil fazer, estamos incorrendo numa perspectiva dualista do conhecimento? Podemos separar o pensar (criticar) do fazer e o fazer do pensar? Pelo menos um dos pais da sociologia clássica nos alertou que não, insistindo no conceito de práxis. O que alguém pensa emana de sua experiência histórico-social. É o socialismo falando.
De onde vem a ideia do pragmático? Ou dessa luta entre o que se pensa e o que se faz? Os gregos definiam o pragma como o objeto, algo feito ou produzido. O verbo pracein significa exatamente isso, o que se produz.
A partir do século XIX, o pragmatismo virou uma corrente filosófica. Pensadores como John Dewey sempre fizeram a crítica da separação dualista entre realidades. O fazer nunca está dissociado do agir e o pensar/critica nunca está dissociado de uma experiência social, prática. É o liberalismo democrático falando.
Portanto, quem faz críticas, o faz a partir de algo concreto, prático, que vive e observa. Não há detentores da capacidade de fazer, nem muito menos da capacidade de pensar, já que essas duas dimensões da capacidade intelectiva estão interligadas.
Estranho realizar simplificações conceituais em torno do que é agir e do que é criticar, como se essa última peça do conhecimento estivesse dissociada da intenção para o agir. Pura falta de conhecimento teórico-filosófico. Reproduzem-se essas besteiras do nível do senso comum, em que o criticar é visto como algo do mundo abstrato, descolado do prático. É bem verdade que muitos abstraem do conceito de democracia, o conceito de crítica, traindo seu próprio discurso, ele próprio assentado no dizer democrático. Eliminar a crítica ou relega-la ao campo da abstração é confirmar a intolerância e o espírito antidemocrático, já que não se faz democracia com perspectivas unilaterais, até mesmo no campo da prática.
O inegável movimento em defesa do nosso entorno ecológico dos últimos meses, fez despertar esse sentimento defensivo por parte dos agentes públicos, como se apenas eles fossem capazes de organizar o mundo prático. Nós, os cidadãos comuns, que vivemos de abstrações, nunca organizamos nada, nunca dirigimos nada, nunca participamos de nenhum projeto social que utiliza das ferramentas da pragmática. Nossa biografia, recheada de abstrações, nunca promoveu mudanças na vida de ninguém, muito menos na nossa. Somos infelizes idealistas, que vivem de fisgar o fígado alheio.
A supressão do conceito de diálogo e de uma pragmática comunicativa, proposta por Habermas, do jogo democrático, faz com que essas aberrações interpretativas emirjam nos discursos públicos, imprudentes colocações que só fazem acirrar os ânimos, e ressaltar a incapacidade em construir a democracia.

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2 respostas para “A crítica pela crítica?”

  1. Márcia Pires Márcia Pires disse:

    Admiro profundamente o que você escreve, porque em seus textos nunca falta a abordagem séria, recheada de todos os “vieses” fundamentais a uma análise inteligente e intelectualizada na medida, sem ser arrogante. E sabemos que a arrogância é armadilha fácil para alguns formadores de opinião.Mesmo a linguagem que você utiliza, um pouco mais rebuscada, não subtrai das tuas linhas toques de sensibilidade. Parabéns! Teu artigo está inspirando o meu.Estou preparando e desde já lhe peço licença poética para fazer uso de algumas das tuas colocações.Beijo

  2. Avatar Patricia Anette disse:

    Gostei demais desse texto. É recorrente também, em Jundiaí, ouvirmos dos vereadores: “É fácil criticar! Se vocês quiserem mudar alguma coisa, venham aqui e se elejam, pra ver como é que é!”. Assustadora essa colocação: uma aberração da democracia representativa. E ainda que essa fala não esteja verbalmente posta tão frequentemente, é latente esse comportamento no poder público, como você observou em relação ao meio ambiente…

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