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“A estrada vai além do que se vê”

Publicada em 08/01/2013 às 12:06 | por Mariana Benatti

david kracovNuma campanha eleitoral, a questão da cultura ainda não é um dos pontos de maior apelo popular. Isso é facilmente compreensível, uma vez que questões como a saúde, o transporte, a segurança, a educação afetam nossa vida e nosso cotidiano muito mais visivelmente. Essa é uma das razões pela qual a cultura é frequentemente vista em nosso país como “a cereja do bolo” – algo que acrescenta, valoriza ou até “decora”, mas que não está na “substância” e assim, não é essencial.

Mudar essa mentalidade é algo difícil e que somente se constrói a longo prazo e com grandes investimentos – investimentos financeiros, sim, mas muito mais no sentido de acreditar profundamente que a cultura não é algo de supérfluo, mas tão essencial aos seres humanos quanto todas as outras dimensões da vida política (a vida na polis, num sentido bastante amplo de política), a ponto de investir esforços para que essa crença seja partilhada pela população.

Um obstáculo que se interpõe nesse caminho é justamente a amplitude do termo. O que é cultura, afinal? O que significa a palavra cultura, quando associada à palavra política? Não nos cabe aqui dissertar sobre os múltiplos sentidos que a palavra cultura abrange. Mas para indicar o rumo conceitual que estamos tratando aqui, podemos dizer que cultura é um conceito amplo, contextual, que engloba a diversidade de aspectos que se tornam identitários de uma determinada comunidade, num processo dinâmico e crítico.

É comum utilizarmos cultura como sinônimo de artes. Música, teatro, artes visuais, bens culturais e manifestações artísticas em geral: a associação de cultura com as artes é comum, mas não pode ser limitante; em outras palavras, as manifestações artísticas são uma fatia daquilo que é a cultura. Cultura passa pelo modo de se vestir, pelas histórias comuns e pelas historias particulares, pela forma como falamos, pelo idioma, as cores, os gestos, a forma como nos cumprimentamos, os hábitos, como nos relacionamos e nos adaptamos ao meio ambiente, os pensamentos e valores que circulam nas veias dessa sociedade. Como um exemplo, até bobo, podemos dizer que é cultural em Jundiaí dizer que vamos para “a cidade” quando queremos dizer que vamos para o centro da cidade. Essa cultura, da qual falamos, não acontece de cima pra baixo, imposta, mas de baixo para cima.

É claro que as diretrizes de uma política cultural, de forma geral, certamente se direcionam a uma dimensão mais palpável, manifesta, da cultura. O plano de governo eleito pelos jundiaienses para os próximos quatro anos enuncia a “valorização, ampliação e universalização da Cultura”, através de pontos como centros culturais, patrimônio cultural, manifestações artísticas, cultura popular e outros, integrando ainda propostas de formação, aperfeiçoamento e debates em torno da questão (confira, na íntegra, aqui https://maisjundiai.blogspot.com.br/2012/07/programa-de-governo-pedro-bigardi.html).

Todos esses pontos presentes no plano são de extrema importância para a cultura em nossa cidade e, se bem aplicados, podem ser alguns passos para transgredir o modo como comumente se entende cultura (como lazer e entretenimento), passando a um sentido político-antropológico, dotando toda a população da certeza de serem sujeitos sociais, culturais e políticos. A cultura assim deixa de ser pensada como algo alheio, e passa a ser vista como um direito da população, que como o define Marilena Chauí, se apoia em quatro pontos:

  • Direito de acesso e de fruição dos bens culturais por meio dos serviços públicos de cultura;
  • Direito à criação cultural;
  • Direito a reconhecer-se como sujeito cultural;
  • Direito à participação nas decisões públicas sobre a cultura.¹

É uma tarefa nada fácil. Para isso, são essenciais ao meu ver, num primeiro momento, três aspectos:

  1. sair dos eventos esporádicos e construir políticas públicas para a cultura que atuem de forma permanente, planejada. Isto é não somente uma conquista da classe artística, mas de toda a população, direta ou indiretamente;
  2. equipes técnicas e profissionais qualificados, que poderão explorar o potencial das políticas culturais em benefício da população de forma democrática, igualitária e não como uma imposição elitista;
  3. compreender que não se pode “levar cultura” a ninguém. Que cultura é de todos, se faz com todos, todos os dias.

A nós, cabe cobrar que as ações tomadas pelo governo caminhem por uma direção que venha a beneficiar todos os jundiaienses de forma democrática, e não somente esta ou aquela classe, este ou aquele grupo. Cabe a nós também refletir: o que é, afinal, essa cultura jundiaiense que queremos valorizar, ampliar e universalizar?

(Esta é minha estreia como articulista, convite que me deixou muito honrada e feliz. Espero que possamos juntos, ao longo desse ano, debater ideias e assim fazer crescer nossa consciência coletivamente!)

¹https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141995000100006&script=sci_arttext

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7 respostas para ““A estrada vai além do que se vê””

  1. Avatar Lígia Luciene Rodrigues disse:

    Mariana. parabéns pela estréia e pelo artigo.
    A cidade tem muito a crescer se a cultura for pensada da maneira como você descreveu. Perfeito!

  2. Avatar Fabiana Franco disse:

    Parabéns, Mari! Muito bom refletir sobre esse conceito mais amplo de cultura como algo intrínseco e enraízado dentro de uma comunidade e não apenas como um termo muitas vezes elitizado, que faz muita gente “torcer o nariz” e não querer se aprofundar e crescer no tema!

  3. Avatar Joice Rodrigues disse:

    A grande maioria dos brasileiros não sente, não se entende como sujeito ativo da cultura, nem da política. Entende um e outro, como algo que é feito por outros agentes específicos. Como será que se dá essa consciência??? Parabéns, Mariana! Belo artigo!

  4. Avatar Patricia Anette disse:

    Gostei muito do artigo, Mari.

    Está claro, sem perder a densidade.
    Tenho certeza que abre aí um ótimo caminho pra leituras!
    Vou acatar a sua sugestão da Marilena Chauí, também. 🙂

    Um beijo

  5. Avatar Marcia Henrique disse:

    Parabéns Mariana!
    Gostei muito do seu artigo. Muito claro e oportuno. Vamos acompanhar e cobrar a implantação das propostas do novo governo.

  6. Avatar josé renato forner disse:

    tem um artista plástico brasileiro ( me perdoem, não me lembro do nome) que disse que a arte é uma ilha no meio do mar que é a cultura. aí me veio a pergunta: quando despertaremos a importåncia de fomentar essa ilha, sem que ela seja engolida pelas águas da cultura? só assim conseguiremos dar uma contribuição singular para a humanidade. não podemos direcionar todos os esforços rumo a preservação. é fundamental nosso investimento em invenção. as dois segmentos ( distintos ao meu ver) devem caminhar juntos.

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