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Algumas reflexões sobre o mês de junho

Publicada em 04/07/2013 às 13:39 | por Colunista Convidado

Artigo de Márcio Tadeu

Este texto não tem a pretensão de polarizar a discussão, mas busca exercer uma reflexão autônoma e libertária sobre os recentes acontecimentos políticos das ruas. Provavelmente não possua nenhuma ideia inédita; ainda assim, acredito que essa discussão nunca prescindirá de novas reflexões.

MOVIMENTO PASSE LIVRE

Ao pensar a atual marcha do “gigante que acordou”, acredito que seja fundamental fazer uma periodização, que possui dois momentos distintos, separados pelo ato de 13 de junho de 2013. Antes dessa data, o Movimento Passe Livre (MPL), apartidário e não antipartido (diversos partidos participam das mobilizações desde o início), que tem por objetivo discutir a questão da mobilidade urbana e que há oito anos possui como bandeira o fim das catracas, vinha promovendo manifestações na capital paulista, que foram duramente reprimidas por uma polícia e uma grande mídia truculentas. Já se sabe o que a Polícia Militar (PM) é capacitada para fazer quando recebe ordens vindas do alto escalão do governo estadual; comprova isso, no caso do estado de São Paulo, o Massacre do Carandiru, em 1992, e o Massacre do Pinheirinho, em 2012, para citar apenas dois episódios que abrangem um período de vinte anos. Outro fato é a grande mídia, pretensamente imparcial, que sempre defende os posicionamentos que visam a manutenção do status quo de uma elite política que detém o monopólio das concessões dos canais de comunicação (rádio e TV). O novo ficou por conta de a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo, e de outras cidades, ter demonstrado estar disposta a ser “democrática”, pois dessa vez não espancou os mesmos pobres das periferias, mas redistribuiu sua violência tática sobre a grande mídia e a chamada “classe média”. A diferença ficou apenas no fato de que a periferia não está acostumada com balas de borracha e spray de pimenta (geralmente convive com balas de verdade). É importante lembrar que existem relatos de resistência por parte de policiais que não aceitaram ordens de atacar os manifestantes.
Desde então, o que se pôde ver foi uma reviravolta por parte da grande mídia, que iniciou sua campanha contra a violência policial e em favor das manifestações (desde que, é claro, algumas mudanças nas pautas pudessem ser feitas). A classe média havia se revoltado contra a polícia e… contra a corrupção, contra a violência, contra a PEC-37 (Projeto de Emenda Constitucional que visava retirar do Ministério Público o poder de investigação, ainda que quase ninguém saiba ao certo explicar o quanto isso realmente fará diferença), contra os “comunistas” do PT, contra a presidente “terrorista” Dilma Roussef e pela paz. As vozes cantavam uníssonas o hino brasileiro e jargões de futebol (“eu, sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”), bradavam ser contra a Copa (logo agora, após o término da maioria dos estádios que sediarão a copa dos brasileiros mais abastados) e pediam melhoras nos sistemas de saúde e de educação. As manifestações se multiplicaram pelo Brasil em 20 de junho (lembrando que elas sempre aconteceram fora dos holofotes), fato que fez com que o resultado fosse um conchavo entre o prefeito da capital paulista Fernando Haddad (PT) e o governador deste estado, Geraldo Alckmin (PSDB). E alguns ainda acreditam que o PT é comunista. Lembrei agora que a humanidade nunca vivenciou uma experiência comunista, de fato, por longo prazo. O encontro resultou no anúncio da redução da tarifa de Metrô e Trens (a cargo da esfera estadual) e dos ônibus (a cargo da esfera municipal) para R$ 3,00. O que antes não era possível se concretizou. Bandeiras partidárias, em tese antagônicas, cederam juntas à pressão popular (elemento chave para se exercer a cidadania e validar a democracia), mas, como quem deixa claro para uma criança que “doces podem causar cáries”, anunciaram que investimentos importantes sofreriam cortes com essa medida.
É claro que o empresariado oligopolista, que detém o controle das empresas de ônibus, não teve que abrir mão de seu lucro integral, medida parecida com a que tomou Pedro Bigardi (PCdoB), prefeito de Jundiaí, sem cogitar a divisão do valor subsidiado com o monopólio jundiaiense de transporte público. No fim, quem continua pagando a conta é o povo, mas, desta vez toda a população da cidade vai pagar essa conta e não apenas os mesmos prejudicados de sempre, que são os mais pobres que dependem totalmente do transporte público. O Vale Transporte é “contado” apenas para os dias de trabalho, não incluindo os dias não trabalhados, o que praticamente exclui muitas famílias do direito à cidade. É por isso que a luta do MPL por um transporte realmente público, de qualidade e sem catracas, apenas começou. Essa é, acima de tudo, uma luta pelo direito à cidade, por aquilo que se perdeu há tempos, pois grande parte da chamada “classe média” não mais vivencia a cidade. A mesma situação não se aplica aos pobres que vivenciam mais intensamente a cidade. Quando podem.
Para o MPL, no momento, a via principal não parece mais ser as manifestações. Ocorreu uma retirada estratégica que fez com que ouvissem gritos (mais digitados que sonoros) que os acusavam de não mais dominarem as manifestações (como se, em algum momento, eles reivindicassem o “poder absoluto” sobre os manifestantes), chamando-os de covardes, de crias do PT, entre outras imbecilidades desnecessárias de serem reproduzidas. Essa retirada estratégica pode fazer muito sentido quando se atua politicamente no cotidiano e se enxerga a possibilidade de agir por outras frentes legítimas e legitimadas, o que não tem ocorrido sempre com muitas das manifestações.

O DESPERTAR DA CIDADANIA?

As manifestações que ocorreram, após 13 de junho, podem ser interpretadas de diversas formas. Dentre as possíveis interpretações, algumas comuns entre muitas pessoas que tenho conversado ou lido algum texto, remetem ao despertar da cidadania, à comprovação da despolitização da população em geral ou, ainda, a de que o brasileiro quer mais é festa. É inegável que as grandes mobilizações do dia 20 foram marcantes no que se refere à retração na posição dos prefeitos e governadores quanto ao aumento das tarifas do transporte público em todo o Brasil. Ainda assim, não deve ser poupada de análise crítica, o que também já vem sendo feito. Já dizia o grande geógrafo Milton Santos (1926-2001) que “O Brasil jamais teve cidadãos, nós, a classe media, não queremos direitos, nós queremos privilégios, e os pobres não tem direitos, não há, pois, cidadania neste país, nunca houve!”.
Esse despertar da cidadania pode ir de encontro às necessidades comuns de todo cidadão ou focar-se nos privilégios de uma minoria. Nesse sentido, ao contrário do que muitos têm colocado a respeito de a população não ser politizada e que esse é o momento de ganharem experiência nas ruas para então serem realmente cidadãos, acho que a retirada momentânea também pode ser uma estratégia de luta. Ao invés de “arrebanhar” ovelhas passivas nas manifestações em favor das causas de alguns líderes (os mais conservadores têm feito isso de forma abrangente), pode ser a oportunidade, daqueles que entendem que o despertar da cidadania deve ser acompanhado de conhecimento de causa e autonomia, de manter seu trabalho esclarecedor, realmente político, para então, contribuir efetivamente para a politização da população, que deveria ser tarefa prima de qualquer governo. Seria arrogância afirmar que toda população é despolitizada, mas, às vezes, guiada pelo ranço para com a política propagada pela grande mídia há anos, acaba por ser manipulada. E falo como quem já o foi e agora tem plena consciência disso.
Mas como contribuir? Pode ser até mais simples do que parece, pois já são táticas cotidianas daqueles que o fazem há tempos: em salas de aula, em grupos de estudos, nos movimentos sociais, em organizações de bairro, nas conversas nos pontos de ônibus, nos sindicatos sérios, no final de semana com os amigos, com a família e onde mais for possível. É claro que um nível mínimo de organização, para aqueles que realmente buscam uma contribuição na sociedade, se faz necessário, pois o coletivo nunca poderá ser substituído pelo individual, nem pelo “cyberativismo” (coletivo, mas sem presença espacial), quando se busca alcançar um objetivo comum. E, em uma sociedade democrática, o partido político é um dos tipos de organização de cidadãos que oficialmente detém maior poder de representatividade, pois assim se constitui nossa democracia. É característica das manifestações pós 13 de junho o ressentimento com os partidos políticos, que também representam um tipo de organização que sofreu razoável desgaste nos últimos anos, pois muitas vezes não representaram seus eleitores, tanto no legislativo (senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores) quanto no executivo (presidente, governador e prefeito e seus respectivos auxiliares, como ministros e secretários). Quanto ao poder judiciário, é importante lembrar que não escolhemos seus representantes e esse poder julga conforme as leis estabelecidas por quem está no poder (e que, muitas vezes, é manipulado). O ressentimento é justo; porém, o gigante que acordou meio atordoado não entendeu que eram esses mesmos partidos, contra os quais ele vocifera palavras de ódio ou agressão nas manifestações, que estavam desde o início lutando ao lado de apartidários, socialistas e anarquistas, em prol de uma causa comum, que era a pauta clara e objetiva do MPL: a redução imediata das tarifas.

NOVOS VELHOS ARES

O alarde de um possível golpe de uma direita fascista (nem toda direita é fascista) e/ou militar (nem todo militar é a favor de golpe, como o de 1964) tomou conta de grande parte da população que acompanhava as manifestações com empolgação. Participei da passeata do dia 17 de junho, em São Paulo (dia em que ocorreu uma das maiores mobilizações), e devo admitir que esse sentimento de medo acometeu-me parcialmente. Na mesma semana, na quinta-feira, dia 20 de junho, novamente ocorreram grandes manifestações por todo o país, talvez as maiores. O que parecia pouco provável, um golpe, começou a parecer verdade, uma vez que algumas vozes insurgiram com força e bradavam sua raiva contra os partidos políticos. O novo estava por conta de uma grande quantidade de agitadores que se aproveitaram do desgaste que passam alguns partidos políticos para então direcionar os gritos de protesto e descontentamento contra muitos daqueles que estavam nas ruas, muito antes daqueles que despertaram com o “#AcordaBrasil”.
É obvio que aquela mesma mídia, que se voltou contra o que chamou de “ações violentas da polícia” e que se posicionou a favor dos manifestantes, propagando a ideia de que era por muito mais que vinte centavos (também caí nessa no começo), também não tinha interesse em um golpe. Por isso que, de maneira sorrateira e calculada, colocou-se como apadrinhadora da pauta e a direcionou contra o governo federal, aproveitando-se da ignorância política de muitos que demonstraram ter uma grande ânsia em exercerem, finalmente, a cidadania. É importante lembrar que a grande mídia representa as corporações transnacionais que são algumas das maiores economias mundiais (sim, corporações, não países!); portanto, geralmente a grande mídia não é nada além de uma grande corporação que trata de incutir ideologicamente no cotidiano da população (a TV atinge quase a totalidade das casas brasileiras) seus desejos, anseios e objetivos. Isso já é o suficiente para afirmar que esse poder autoinstituído (e assim continuará enquanto não ocorrer a democratização das concessões de rádio e TV) não possui interesse em uma ditadura no país, pois a “liberdade de expressão” que reclama da democracia lhe favorece. Mas é importante recorrermos à história nesse momento. Essa é uma prática essencial, sobretudo nos dias de hoje em que a cultura de massa (planejada e instaurada por uma minoria que lucra com isso) foi esvaziada totalmente de conteúdo e pensamento crítico e, muitas vezes, tão infantilizada quanto erotizada. E, se fizermos uso desse recurso (a História), podemos lembrar o editorial de “O Globo” do dia 02 de abril de 1964:

“Ressurge a Democracia: Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições […]”.

Com toda certeza, a grande mídia é dotada de uma adaptabilidade amoral e descompromissada (típica das transnacionais) com os interesses populares de tal forma explícita que se tornou emblemático, aos que compartilham dessa ideia, assistir a crônica de Arnaldo Jabor no noticiário noturno global do dia 13 e, na sequência, assistir a sua crítica, também noturna, alguns dias depois (ainda que sua fala na rádio CBN seja mais explícita). Ainda assim, esses novos velhos ares, mesmo que exagerados, da instalação de um possível regime autoritário, podem ser úteis se o que se busca é uma melhora qualitativa da sociedade, em prol do coletivo. O temor por um domínio político repressivo altamente conservador pode ser o estopim para aqueles que sonham com uma vida melhor para os que aqui estão (ou ainda para seus filhos), que buscam uma utopia no horizonte, possam acordar (muitos nunca dormiram) e então debater politicamente tudo aquilo que já temos experiência enquanto cidadãos, enquanto reféns de um regime repressivo (e, em parte, ainda somos, conforme essa reflexão tenta explicitar) e que não mais queremos.
Pode ser a hora de discutirmos o que vem a ser uma Reforma Política, para que serve ou para quem serve; discutirmos e procurarmos entender porque existe uma relação sincrônica entre pobreza e a falta de cobertura de serviços de saúde; pensarmos em que modelo de polícia queremos, e se queremos; conhecer melhor os três poderes que regem o país, pensando na necessidade de se estabelecer maior controle sobre os direcionamentos do poder executivo e do poder legislativo, além de discutir o fato de não haver controle algum da população sobre o poder judiciário (que age, conforme relatos de alguns de seus representantes, a bel-prazer); entre muitas outras questões de interesse comum. A verdade é que estamos munidos de ferramentas fantásticas para agir em favor da maioria da população, principalmente a que fazemos parte: a local. Entre elas, os Planos Diretores participativos, que são ferramentas fantásticas para que a população aja localmente, cobrando, intervindo e o construindo conforme seus anseios, e o Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001), que é outro instrumento valioso, mas ainda pouco legitimado, assim como outras Leis no Brasil que não “pegaram”. O medo pode até povoar nossas mentes, mas a ação ainda pode ser a maior propaganda.

RESSENTIMENTOS

Sem o intuito de ridicularizar as passeatas, acredito que seja considerável de atenção a analogia que pode ser feita entre as mais recentes manifestações e a festividade carnavalesca e futebolística brasileira. A bandeira da “ordem e progresso” e o pouco inteligível hino foram grandes agregadores utilizados sabiamente pelos segmentos mais conservadores presentes nas manifestações: “uma pátria, uma bandeira”. Brasil, país do carnaval, país do futebol.
Da mesma forma que é compreensível o ressentimento existente com os partidos políticos, entende-se que aqueles que há tempos estão nas ruas tenham ressentimentos com os manifestantes enrolados na bandeira brasileira que entoam cânticos de futebol, que dançam ao som da percussão típica de carnaval (que em determinados momentos pode significar uma expressão cultural de resistência) e que carregam faixas com os hashtags ou pedidos genéricos, pois são geralmente esses que saíram às ruas indignados com a violência policial que vêm escorraçando com violência manifestantes que participam de partidos políticos.
Da mesma forma que é compreensível o ressentimento existente com os partidos políticos, entende-se que aqueles que há tempos estão nas ruas tenham ressentimentos da grande mídia, expulsa de alguns dos atos; pois é a grande mídia a responsável pela implantação de ideologias que favorecem pequenos grupos e ferem os anseios da maioria da população. Se ainda há dúvidas do papel da grande mídia, um exercício interessante para obter essa comprovação é acessar aos editoriais e reportagens emitidas antes do dia 13 de junho e depois.
Da mesma forma que é compreensível o ressentimento existente com os partidos políticos, entende-se que aqueles manifestantes há tempos estão nas periferias sofrendo com a violência policial tenham ressentimentos com as forças de repressão do Estado. Inclusive cito isso, pois um amigo que participou de uma passeata em Campinas (SP), disse que rapazes estavam enfrentando a Tropa de Choque simplesmente por ressentimento de serem frequentemente escorraçados por eles. É dessa polícia que os manifestantes possuem ressentimento e é daí que surge a discussão acerca da desmilitarização da polícia. Os ressentimentos também poder significar uma oportunidade para se iniciar uma discussão política.
Talvez, mais do que ir as ruas com pautas esvaziadas de conteúdo (lembrando que nem todas as manifestações são assim), seja a hora de aproveitar esse momento de efervescência política para ir para a rua discutir e construir as relações políticas que possam ir de encontro com os anseios da maioria da população das cidades e não apenas dos sempre privilegiados setores que tradicionalmente recebem o suporte político que ignora a possibilidade de justiça social. De nossas contradições enquanto seres políticos podem surgir as mais diversas reflexões que têm a possibilidade de servir de base para que então possamos construir o novo.

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