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Araken e o resgate da alma de Jundiaí

Publicada em 10/12/2013 às 12:24 | por Voto Consciente Jundiai

>ENTREVISTA

24/1/2010

MATEUS VIEIRA Para Araken Martinho, transporte, abairramento e agricultura devem ser assuntos debatidos no Plano Diretor

Para Araken Martinho, transporte, abairramento e agricultura devem ser assuntos debatidos no Plano Diretor

Arquiteto e urbanista formado pela Universidade de São Paulo (USP) na década de 1950, o jundiaiense Araken Martinho, 77 anos, encara um novo desafio: ajudar a pensar a cidade de Jundiaí e a planejar as regras e condições que vão nortear seu desenvolvimento. Como presidente da Comissão do Plano Diretor, Araken quer motivar a Prefeitura a descobrir a alma do município. “Jundiaí começa a ter Plano Diretor efetivamente a partir de 1970, mas a visão era muito mais de controle do que de avanço”, afirma.

O transporte e a necessidade de Jundiaí promover o abairramento – com núcleos que reúnam uma estrutura formada por comércio, casas e escolas – são pontos essenciais nesta discussão, na visão do arquiteto. Há tempo – a Prefeitura já anunciou que o plano só será revisado integralmente em 2011. Membro do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), casado com a escritora Sônia Cintra, Araken é um conhecedor da história de Jundiaí. Responsável pela construção do Paço Municipal em 1989, ele coordena a reforma do prédio, prevista para começar este ano. A reestruturação é um pedido do prefeito Miguel Haddad.

“Ao conversar com o Miguel ele me falou dos problemas de trabalho, como a falta de espaço para se reunir com os secretários. Ele mal pode abrir a porta do gabinete que já há pessoas ali. Propusemos mudanças. Uma delas é que, em uma cidade do porte de Jundiaí, acredito que se deva administrar por projetos, segundo as secretarias que vão resolvê-los. E para estas reuniões não existe lugar na Prefeitura. Vamos analisar esta questão. A reforma está se transformando em uma coisa gostosa.” Segundo ele, a primeira etapa – que prevê modificações nos dois últimos andares do Paço – deve estar concluída até a metade do ano. “As outras vão depender de discussões que estão acontecendo. Precisamos preparar o Paço, que tem 20 anos, para os próximos 20”, diz. A entrevista foi concedida em seu escritório, na avenida 9 de Julho. Confira:

Jornal de Jundiaí Regional – Como foi a escolha pela arquitetura?
Araken Martinho – Meu pai trabalhava na Cia. Paulista de Estradas de Ferro, na sessão de pesquisa técnica. Por isso, tentaram me convencer a fazer Engenharia e não sei por que eu cismei com Arquitetura. Fiz o curso na USP assim que ela havia mudado, saído da Politécnica para a rua Maranhão. Considero aquele o melhor período da arquitetura. Os maiores arquitetos considerados até hoje foram todos meus professores. O curso era em tempo integral e, a partir do segundo ano, fui convidado a trabalhar. Comecei em São Paulo, mas fazendo casas para amigos em Jundiaí. Com o tempo, percebi que a capacidade que a universidade deu de compreender o mundo moderno era muito grande, mas notei que em Jundiaí vários mestres de obra conheciam coisas que a faculdade não mostrava. Decidi vir mais para cá. De fazer casas para os amigos, começaram a aparecer pedidos de comércios e, logo, de indústrias. A Vigorelli do Brasil, que estava no auge, me contratou para fazer toda a parte de arquitetura das fábricas, que existiam em todo o Estado. Eles me convidaram, na década de 1960, para uma viagem a Europa a estudo e para começar a montar uma proposta de criação de uma indústria de casas pré-fabricadas. Logo, porém, a empresa acabou falindo.

JJ – Muitos têm a impressão de que Jundiaí não foi planejada em termos arquitetônicos. O senhor concorda?
Araken – Acho que sim. Só o Vasco Venchiarutti, que foi prefeito com 20 e poucos anos de idade, numa época em que Jundiaí era agricultura de um lado e a Cia. Paulista de outro, pensou na cidade. Naquela época, Jundiaí saía da rua XV de Novembro e terminava na rua do Rosário. Abaixo da Rosário, a rua que existia, a Senador Fonseca, era de terra. O Vasco estudou Urbanismo, tinha uma ótima formação em Arquitetura, e começou a perceber que a cidade iria crescer para oeste, porque o Adhemar de Barros (então governador do Estado) estava vindo de São Paulo com a Anhanguera. Veja que raciocínio antecipado. A primeira coisa que ele fez então foi lançar a avenida Jundiaí, já reservando áreas para o Ginásio do Bolão e a Festa da Uva. E o que é mais importante: percebeu que na área mais alta da cidade deveria ficar o abastecimento de Jundiaí e ali fez a sede da DAE. O Vasco é a pessoa que realmente pensou a cidade enquanto um projeto para o futuro.

JJ – E, desde então, a cidade avançou?
Araken – Jundiaí começa a ter Plano Diretor efetivamente a partir de 1970, mas, ao organizar este plano, a visão era muito mais de controle do que de avanço. Quer dizer, não é um plano para a cidade se transformar em alguma coisa. É para colocar ordem na casa. Para se ter um ideia, em termos de vias, como as avenidas, o que há hoje já estava lançado no projeto do Vasco, quando ele saiu da Prefeitura em 1959. Fizemos mais planos para regular, que determinam o que pode ser feito, até qual altura, mas não para dizer ´esta cidade tem este projeto aqui porque nós queremos vê-la assim´. Temos cobrado isso, principalmente em um período como este que estamos atravessando, em que a cidade vai se transformar rapidamente em uma cidade de grande imigração, de classe média e classe média alta. Jundiaí cresce rapidamente e não consegue passar o que é a sua alma.

JJ – Quais são os pontos mais críticos desta ´falta de identidade´?
Araken – O que é mais preocupante é que se desmontou a ideia que chamamos de abairramento. Você pode estar fora do Centro, mas nos bairros deve haver núcleos com praça, comércio, farmácia, escola. No passado, bairros como a Vila Arens e a Ponte São João eram assim. A convivência acontecia e gerava civilização. Havia respeito um pelo outro porque se convivia com a mesma pessoa, sempre, no mesmo lugar. O abairramento vai criando civilização. Estas coisas estão desaparecendo. A maneira de morar hoje, em loteamento fechado, em prédios, onde as pessoas coexistem, do meu ponto de vista, é completamente equivocada. Você não conhece seu vizinho. A única coisa comum é que você paga o condomínio. A convivência, que seria um dependendo do outro, não há. Recuperar isso me parece ser a coisa certa.

JJ – Faltou um projeto com foco no todo?
Araken – Acho que nunca houve em Jundiaí esta preocupação de projeto urbano. Teve a preocupação de planejamento e controle urbano, como se só por planejar as coisas fossem entrar nos seus lugares. Ainda hoje você ouve ´vamos criar espaços públicos´. Mas o que são estes espaços públicos? Tomemos como exemplo a Festa da Uva. Aquilo só enche de gente se você colocar milhões de toneladas de som e trouxer um artista e o que acontece ali é uma tribalização, é um monte de gente acompanhando aquele som. Mas aquela gente, depois que sai dali, não tem nada a ver um com o outro. Não junta público, não cria convivência. Em Jundiaí, a impressão que eu tenho é que os planos funcionaram muito como controle. Agora, precisamos planejar a cidade e pensar em qualidade de vida.

JJ – Quais serão os principais desafios para esta revisão do Plano Diretor?
Araken – Temos de pensar seriamente no setor de transporte e nos vários modais que podemos usar: trilho, ciclovia, pedestre, transporte coletivo, transporte individual. Este conjunto de mobilidade não pode ser uma base que faça com que em qualquer movimento do meu dia eu dependa do veículo para atravessar a cidade. Eu preciso começar a usar o veículo duas vezes por dia. O resto deve estar próximo. Esta é uma coisa. A segunda eu acho que deveria ser uma experiência de abairramento. Um projeto mesmo. Tomar uma área da cidade e dizer: “nesta área aqui, dadas estas condições que tenho, o que posso fazer para a comunidade que vai viver aqui?” Isso está fazendo muita falta. O plano que será revisado no ano que vem deve levar isso em conta. Outro ponto que acho que vale a pena discutir e é pouco falado é a produção rural. Não se fala disso em Jundiaí, como se a área rural fosse uma área à espera de se transformar em cidade. Não poderia ser assim, até por conta da capacidade que tem o setor rural de nos ajudar, que é enorme. Pensamos em áreas de preservação, mas em áreas de produção quase não se ouve falar. Vamos pagar caro por isso.

JJ – Este processo levará em conta a opinião da população?
Araken – Sim. É preciso ouvir a população, mas de que modo? Uma enquete? Não. Não se pergunta a todo mundo sobre tudo. Se for falar da Ponte São João, tenho que ouvir o morador de lá, não do Eloy Chaves. Participação é a pessoa que está ali, vivendo. O meu conhecimento é técnico. O dele não. É de vida.

ROBERTA BORGES

fonte: JJ

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