Voto Consciente Jundiaí | https://votoconscientejundiai.com.br

Consultas do Plano Diretor: transcrição de um modelo falido

Publicada em 20/10/2011 às 11:08 | por Henrique Parra Parra Filho

Transcrevo aqui minhas percepções, publicadas minuto a minuto por um celular simples, em meu próprio facebook, enquanto participava, como morador do Jardim do Lago, da Consulta Pública do Plano Diretor na Região Sul. Pontuo dois fatos marcantes; o primeiro justifica o porquê de eu ter demorado tanto a publicar este artigo, já que a transcrição já estava online. Fiz isso para poder acompanhar outras consultas, receber o relato e depoimento de outras pessoas e, acima de tudo, debater com amigos que também acompanharam este tipo de “evento”.

Assim, o interesse aqui não é o de polêmica, mas o de inspirar a autocrítica, abrir um debate sobre a metodologia utilizada pela equipe da Secretaria de Planejamento e ajustar os rumos para as próximas ações de “consulta pública”. O segundo ponto é tão importante quanto o primeiro; esta não é uma transcrição objetiva, mas, pelo contrário, marcada pelas impressões pessoais de alguém que há cinco anos vem atuando de forma voluntária para estimular e fortalecer a participação cidadã em Jundiaí.

Nestes últimos anos, em conversas com Araken Martinho e Nabil Bonduki, entendemos com clareza que uma metodologia de Plano Diretor Participativo já foi exaustivamente elaborada pelo Ministério das Cidades e Conselho das Cidades. Um de seus pontos trata da “capacitação de agentes sociais”. São oficinas e workshops para alinhamento técnico e conceitual. Confundir essas oficinas com uma “Consulta Pública” nos bairros, com os moradores, é um erro primário.

Nos bairros estão os maiores especialistas em “morar, conviver, sobreviver e melhorar” o próprio bairro. Este argumento é de uma simplicidade brilhante. Ouvir, antes, falar (pouco) depois, já que o “de fora”, está aprendendo os jargões, linguagem e símbolos do local. E, infelizmente, hoje, a Prefeitura de Jundiaí é estrangeira em muitos bairros de nossa cidade.

 

20h47
Cento e poucas pessoas no antigo clube Cometa de grandes times de futebol amador e atual reduto de truqueiros. Consulta sobre o Plano Diretor começa como uma prestação de contas do que está sendo feito e reconstituição histórica do avanço dos antigos planos. // primeira sugestão: que tal enxugar isso em um vídeo inspirador de 4 mins?
20h49
15 minutos de explanação e estamos em 1980! Faltam só 30 anos!
20h51
slides estão claros, com fonte grande e a explanação de jaderson está pausada, com microfone e mapas coloridos
20h52
já estamos em 1998! ;p
20h53
Público é qualificado. Marilena e Juliao, 3 secretários e inúmeras lideranças partidárias, de bairros e de organizações sociais.
20h54
recuperando: jaderson repetiu algumas vezes a palavra “técnico”, a consultoria contratada e os técnicos internacionais que deram palestra.
20h57
estamos em 2004 e ouvindo dos loteamentos irregulares (em termos globais, da cidade toda, não foi apresentado nenhum loteamento irregular da região sul)
20h58
a menininha na minha frente bocejou. Tem um senhor pescando, mas o publico ainda ouve bem
20h59
acabei de receber a pergunta “a consulta hoje é pra que exatamente?” (também estava tentando entender!)
21h01
agora estamos ouvindo sobre a serra do japi. KMs, datas, técnicos e mapas. Ouvimos que foi feito um consórcio para a serra e o nome do miguel surgiu pela segunda vez (mais uma vez, a apresentação é global, sobre temas diversos e tratando da cidade toda, sem focar o bairro ou a região sul)
21h02
recuperando; carmelo, ao abrir, ressaltou que a reunião é técnica, não política e que as perguntas e falas devem se limitar ao plano diretor, de preferência
21h03
agora ouvimos que jundiaí é a única cidade que tem a guarda municipal com canil e destacamento florestal (Nenhum dado de segurança sobre a região sul foi apresentado e este dado foi apresentado pelo simples motivo de dar publicidade a uma ação positiva da Prefeitura.)
21h04
agora estamos olhando um gráfico pizza com a situação fundiária da reserva biológica (Mais uma vez, a apresentação de dados globais frustra a expectativa do público de falar sobre as demandas locais)
proposta2: porque não gravar esta fala do jaderson e disponibilizar no youtube?
21h07
chegando a 40 mins e a maioria ainda ouve comportada! Agora to entendendo para que valeram os anos de escola! 😉
jaderson acaba de falar “bom, agora vamos pro plano diretor!”
propostairônica1: Mudar o nome do evento para “Prestação de contas da Prefeitura” ou “Alinhamento conceitual de planejamento”
21h09
alguns bocejos de adultos acabaram escapando
21h11
recuperando: carmelo disse que a consulta teria duas horas de duração.
Pergunta2: A exposição de uma hora do carmelo conta?
21h16
agora estamos ouvindo sobre o estatuto da cidade e a função da propriedade. Ouvimos “depois vou dar um olhar técnico
21h18
slides de instrumentos e artigos de leis. É uma razoável aula inaugural para uma matéria de planejamento.
Pergunta3 : será que isso dá insumos efetivamente para se discutir a região, possibilitar diálogo verdadeiro com os moradores, construir processo de escuta e influenciar a elaboração do Plano?
21h22
jaderson diz “tudo isso pra vocês saberem o que nós estamos fazendo. Tudo isso é técnico, nossos próprios técnicos têm dificuldade. Ninguém precisa sair daqui sabendo isso”
21h23
terminou agora a exposição! Vão começar as perguntas
21h27
marilena faz uma fala, diz que é a primeira abertura participativa, agradece ao secretário por ter atendido pedido de carlão menegasso e feito uma consulta na zona sul. Diz que isso é fruto de muita luta, conta que mora na zuferey e, mantendo limite de 5 minutos, pincela os problemas da região
21h29
O público começa a falar! (Uma hora e meia depois do início previsto)
22h50 está acabando a consulta. Quase três horas de cansaço e alguma frustração de quem veio para falar dos problemas do bairro. Será que o resultado será desestimular a participação dessas pessoas e reforçar a imagem de que política é algo chato, cansativo, desgastante e árido?

Avatar

Leia mais sobre Outros

3 respostas para “Consultas do Plano Diretor: transcrição de um modelo falido”

  1. Avatar Fabio Storari disse:

    gostei mt do destaque:

    “Nos bairros estão os maiores especialistas em “morar, conviver, sobreviver e melhorar” o próprio bairro. Este argumento é de uma simplicidade brilhante. Ouvir, antes, falar (pouco) depois, já que o “de fora”, está aprendendo os jargões, linguagem e símbolos do local. E, infelizmente, hoje, a Prefeitura de Jundiaí é estrangeira em muitos bairros de nossa cidade.”

    De fato, a administração tem focado tanto suas ações nos novos empreendimentos da cidade, que distanciou-se dos bairros constituídos, onde os problemas existem e as possibilidades de retorno são menores.

    Quando nosso secretário compara nossa cidade a Maringá – PR, cidade inteiramente planejada, ou busca referências em Boudaux – França, aumenta o abismo existente entre uma administração voltada ao grande capital e as necessidades do povo.

    é esse estilo “playboy” de planejar um município que gera um bilhão e meio de reais por ano, que faz da prefeitura de Jundiaí, uma gringa nos bairros.

  2. Avatar Cleber Possani disse:

    Certamente esse modelo de audiência desestimula totalmente a participação. Esse modelo imagina que um cidadão comum deve aprender a lógica e a linguagem técnica usada pela prefeitura (em apenas algumas horas absurdamente cansativas) e que ainda deve ser capaz de, em minutos, expressar suas ideias e desejos nessa mesma linguagem árida! Impossível!!

    Me parece evidente que a chave para um novo modelo está nos dois pontos lembrados pelo Henrique:
    – a “capacitação de agentes sociais”, com bastante antecedência, e consultando esses agentes ainda no período de elaboração do Plano Diretor;
    – e, ao invés de obrigar o cidadão a aprender a linguagem técnica, obrigar os técnicos a aprender “os jargões, linguagem e símbolos do local”.

    Claro que isso depende de vontade política por parte dos governantes, mas nós podemos aumentar a pressão nesse sentido se despertarmos cada vez mais nos cidadãos a indignação contra um poder público que impõe a todos uma língua estrangeira, que nos coloca na posição de incompetentes e incapazes, que, enfim, HUMILHA NOSSA CAPACIDADE POLÍTICA.

  3. Avatar Fábio Campos Alves disse:

    Estas consultas promovidas nos bairros pela prefeitura nada mais são do que um grande jogo de cena, mais uma estratégia de marketing para perssuadir a “massa” que vive adormecida, em uma cidade sem cultura e liberdade de pensamento, uma cidade rica gerida por mentes pobres.
    Repleta de empresários transvestidos de agentes públicos, que enriquecem dia a dia através de uma verdadeira orgia empresarial promovida nos bastidores da política de quinta categoria que aqui é praticada.
    Mas se a maioria aplaude, o que resta é formar cidadãos conscientes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Link original: https://votoconscientejundiai.com.br/consultas-do-plano-diretor-transcricao-de-um-modelo-falido/