Voto Consciente Jundiaí | https://votoconscientejundiai.com.br

A Democracia do Silêncio vs. O Microfone Ligado

Publicada em 20/03/2012 às 12:19 | por Patricia Anette

"Monkey Parliament", painel pintado por Banksy

Na terça-feira passada, durante a 139ª Sessão Ordinária, que acompanhei pelo Voto Consciente na Câmara Municipal de Jundiaí, o vereador Julião (PSDB), presidente da Casa dessa Legislatura, fez um comentário sobre o qual é preciso refletir. Além de agradecer a presença dos alunos do Colégio Divino Salvador que vieram assistir à sessão uniformizados (convidados, segundo a vereadora Ana Tonelli (PSDB), por seu professor após uma sugestão de Mingo Fonte Basso (PSDC)), Julião proferiu o seguinte discurso:

“É extremamente importante (…) que vocês participem da vida política da nossa cidade. Vida política é isso que vocês fizeram hoje, essa participação ouvindo, vendo o que os vereadores discutem, concordando ou não com a opinião. Democracia se faz com o diálogo, e não na base da pressão, não na base do grito, não na base da anarquia, como alguns ainda imaginam que é a forma de se fazer democracia. Democracia é você mais ouvir do que falar e agir em muitos casos, como a gente às vezes faz nessa casa”. (Grifos meus; assista ao discurso aqui)

Julião se referia, muito provavelmente, ao tipo de posicionamento que os cidadãos tiveram na Audiência Pública do dia 1º de março, para a discussão do aumento dos salários dos vereadores. Naquela noite, a Câmara lotou – o que evidencia a necessidade de transformar as Sessões Ordinárias da Câmara em noturnas –, e a gritaria foi grande: toda vez que algum vereador se pronunciava, ouvia-se um “ladrão!” vindo da plateia. As vaias foram numerosas e a indignação generalizada, seja porque nossos representantes queriam aumentar os salários dos próximos vereadores em mais de 50%, seja porque ao invés de debatermos as Metas Legislativas¹, fundamentais para o desenvolvimento da nossa cidade, estávamos debatendo os subsídios dos políticos.

É difícil, contudo, saber como se portar na Câmara Municipal, já que não estamos habituados a esse ambiente, onde inclusive não há lugar para a intervenção dos cidadãos – não há Tribuna Livre nas Sessões Ordinárias, por exemplo. Ora, esta se constitui em instrumento fundamental para a construção de uma casa de leis democrática. É a partir do exemplo de quem fala na Tribuna Livre que a plateia se posiciona. Se não temos esses sujeitos em quem nos espelharmos, seguimos o exemplo de quem está na plateia conosco: os alunos do Divino, provavelmente pela primeira vez a assistir uma Sessão Ordinária, ficaram em silêncio absoluto (ou se comportaram bem, segundo Júlio César de Oliveira) porque não existiam pessoas se manifestando “do lado de cá”. Observei, aliás, um momento interessante neste dia: o vereador Fernando Bardi (PDT) fez uma piada de que a criançada gostou, e uma aluna quis bater palmas timidamente. Não foi acompanhada pela plateia também tímida e parou na segunda espalmada.

Nesse sentido, é claro que a situação oposta, como ocorreu na Audiência Pública do dia 1º de março, de agitação geral, teve um correspondente nas falas que ocorreram na Tribuna, algumas extremamente desrespeitosas. Ao mesmo tempo, esse espelhamento com o falante da Tribuna também se deu de forma positiva: durante a fala tranquila e estruturada do Henrique Parra Parra Filho, voluntário do Voto Consciente Jundiaí, não houve manifestações acaloradas. Se é verdade, portanto, que as manifestações têm gradações semelhantes à do falante na Tribuna, está óbvio que existiram falas nervosas feitas no microfone que tiveram sua origem no incentivo do público inconformado.

Como evitar, então, que a população se manifeste desrespeitosamente nos momentos em que participa das discussões, tolhendo as falas dos cidadãos comuns e das autoridades públicas? A resposta tem sido dada pelo Voto Consciente desde 2008: incluindo a sociedade com maior frequência nos debates da cidade, a partir de medidas como a abertura da Tribuna nas sessões, a maior divulgação dos materiais votados e a mudança das Sessões Ordinárias para o período noturno, de maior acesso aos trabalhadores e estudantes. Ao participar mais da vida da pólis, as pessoas tendem a entender seu papel na sociedade e entrever os meios legítimos e eficazes de participação – que quase nunca estão no grito.

O uso da Tribuna é fundamental para o aprendizado coletivo e para o amadurecimento político da nossa cidade, assim como a participação cidadã nas Sessões Ordinárias. Enquanto este espaço for limitado pelo horário e pela inexistência da Tribuna Livre, a população tende a acumular sua carência de que o poder público abra seus ouvidos – já que para o presidente da Câmara, é este o ônus da democracia –, explodindo nos momentos em que houver um microfone ligado e umas autoridades presentes.

 

 

1. Para saber mais sobre as Metas Legislativas, acesse: Primeiro metas, depois salário?

Avatar

Leia mais sobre Outros

2 respostas para “A Democracia do Silêncio vs. O Microfone Ligado”

  1. Márcia Pires Márcia Pires disse:

    Excelentes falas, Patt! Quando chamamos de “gritos dos excluídos” tais acontecimentos, muitas vezes somos tachados de dramáticos. Talvez o silêncio dos alunos do colégio Divino seja a tradução daquilo que devo colocar em linhas logo em seguida: que dizer diante de certa hipocrisia vinda daqueles que pregam o sentido da democracia e não o fazem eu seu dia-a-dia de trabalho legislativo?

  2. Avatar Frederico Schroeder disse:

    Concordo, acho que a falta de hábito é uma parte, mas a parte maior é eles não conhecerem as formas eficazes de participação, que realmente não estão no grito, nem nos palavrões.

Deixe uma resposta para Frederico Schroeder Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Link original: https://votoconscientejundiai.com.br/democracia-do-silencio-vs-microfone-ligado/