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Dois itens para uma das saídas

Publicada em 25/04/2011 às 03:41 | por Alberto Urbinatti

I – A entrada

Vídeo: Le Flâneur

“Se, no começo, as ruas se transformavam para ele em interiores, agora são esses interiores que ser transformam em ruas […]”. É o que diz Walter Benjamin¹ quando analisa Baudelaire e Poe na criação da ideia do flâneur: pensada – no século XIX – num contexto bastante específico de formação dos centros urbanos e de expansão do comércio em função da produção de mercadorias pelas crescentes indústrias. O flâneur, portanto, era a figura que caminhava sem destino e sem intenção pelas ruas (parisienses e londrinas), degustando toda aquela transformação do modo de vida da cidade. É um anônimo abandonado na multidão. Mas, como seria pensá-lo nas atuais circunstâncias? De fato, essa ideia ainda pode ser muito inspiradora. Através dela podemos entender, em partes, os hábitos que nós, mais ou menos “modernos”, desenvolvemos nos locais urbanizados (ou quase) em que habitamos.

II – O permanecimento

Somos nós que fizemos e fazemos a cidade onde vivemos. Isso já deve ter sido dito em alguma esquina da nossa história urbana. Também somos nós que, a cada passo pelas calçadas e ruas, influenciamos e criamos a paisagem e o ritmo dela. Nesse sentido, quando optamos pelo uso exclusivo dos carros, como exemplo maquinal de toda liquidez da tão falada “modernidade”, ditamos uma velocidade alta bastante para obscurecermos a faculdade – humana – da apreciação serena das paisagens que, gostemos ou não, nós mesmos construímos. “É no prolongamento da potência da máquina que se encontra, em nossa sociedade, a potência humana perdida”². Entretanto, alguns podem dizer que, ao utilizarmos cada vez mais os carros, caminhamos também nessa direção, visto que os crescentes congestionamentos permitem o mesmo. Pois bem, pode ter lá sua veracidade, mas existem elementos intermediando essa ação, seja o som ligado, o vidro fechado ou a própria disposição do observador. O flâneur contemporâneo estaria dentro de um automóvel? Particularmente, não consigo acreditar nessa relação.

III – Uma das saídas

Se pensarmos Jundiaí através de sua rica história de formação, logo perceberemos que somos convidados todos os dias para atualizar a flânerie pelas ruas e, dentre as possibilidades, está o ato de admiração dos vestígios do passado em contraste com os elementos do presente. Contraste manifestado nas construções e nos tipos arquitetônicos, por exemplo. No entanto, temos indicações de que esse flâneur contemporâneo pode ganhar atributos e ir além: pode ser um flâneur coletivo que ao ocupar as ruas – a partir de um sentimento de pertencimento ao que é público – não vagueia simplesmente abandonado (à mercê do destino), mas, evoca uma intenção. Esse “novo flâneur” ainda questiona o porquê de não pensarmos diariamente em ocupar nossa cidade de maneira menos privativa. Ele não só usa as ruas como refúgio, ele as usa apresentando propostas. Enfim, acho que no próximo sábado, dia 30/04, a Bicicletada Jundiaí pode contar melhor essa história.

Vídeo: Plantão Jundiaí – Bicicletada Cultural

Bicicletada Jundiaí

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¹ BENJAMIN, Walter. “Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo”. São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 51 (Obras escolhidas, v. 3.).
² LUDD, Ned (org.). “Apocalipse motorizado : a tirania do automóvel em um planeta poluído”. São Paulo : Conrad Editora do Brasil, 2005. p. 20. (Coleção Baderna).

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3 respostas para “Dois itens para uma das saídas”

  1. Gostei das associações!

  2. Avatar Cleber disse:

    “É no prolongamento da potência da máquina que se encontra, em nossa sociedade, a potência humana perdida”. Esse é o melhor diagnóstico que já vi do sentido de nossa paixão por carros! (Talvez também de nossa paixão por celulares, computadores, ipads, home theaters, video games…). Seguindo essa ideia, quando optamos por “regredir” do carro para a bicicleta, estamos justamente recuperando nossa potência humana! E ao reencontrá-la, descobrimos que essa potência é, e sempre foi, POLÍTICA.

    O flâneur não encontra mais a intensa transformação do modo de vida das cidades europeias do século XIX. Diante da mesmice do modo de vida contemporâneo, o novo flâneur sabe que precisa, antes de mais nada, PROVOCAR transformações para, só então, ter o que degustar…

  3. Pessoal do Voto Consciente,

    Me encantei com o trabalho de vocês e estou interessada em me tornar ‘Membro/Voluntária/Associada’, não sei qual título vocês dão, para quem faz parte do grupo de apaio. Gostaria de receber informações sobre quais providências deverei tomar para me juntar a vocês nas causas ‘gritantes’ de Jundiai.

    Abraços,

    Maria do Rosario Paranhos Gordaliza

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