Voto Consciente Jundiaí | https://votoconscientejundiai.com.br

Entendendo Nada

Publicada em 21/04/2011 às 11:23 | por Patricia Anette

Em Jundiaí, quando falo sobre o Movimento Voto Consciente, muitas pessoas pouco informadas respondem com: “você acha que vai mudar o mundo?” ou “esses seus amigos revolucionários…”, como se fôssemos algum tipo de guerrilha. Principalmente no início da atuação do Voto aqui, a prefeitura e a situação da Câmara Municipal também pensaram dessa forma. Já na Universidade onde estudo, em São Paulo, as conversas políticas estudantis têm como base o radicalismo de esquerda; qualquer coisa que se pretenda livre de fundo partidário é tida como “reacionária”, “reformista” ou, no máximo, “de centro”.

É por isso que a pergunta “nós (do Voto) somos reformistas?” tem ecoado na minha cabeça desde que entrei na faculdade, em oposição ao caráter quase golpista com o qual fomos marcados em 2007, no contexto da apresentação do Ranking dos Vereadores. Passei a perceber como esse conceito de reformismo tem que ser revisitado: realmente não entendo muito bem a função pejorativa que lhe destinam os que se dizem revolucionários, já que não posso crer que as ações do Voto Consciente, por exemplo, sejam tão graduais e amenas assim, muito pelo contrário.¹

A mobilização cívica e apartidária na “terra querida” tem caminhado para um futuro bastante transformador. Como twittou Milton Jung, o cidadão é posto como “protagonista das políticas públicas” na medida em que surgem ótimos projetos para a região, como o Adote um Vereador, o portal Cidade Democrática, a Agenda Cidadã, a distribuição da Ficha Pública e o concurso Cidadonos. Ao invés de simplesmente organizarmos debates com os candidatos e lançarmos nossos Rankings de acompanhamento da Câmara Municipal de Jundiaí – diretrizes fundamentais do Movimento –, nossa principal missão passou a ser deixar vários canais abertos para que qualquer cidadão jundiaiense possa falar, ser ouvido e discutir sobre o que é e o que não é bom para a cidade, sem a sobreposição de vozes partidárias. A revolução do Voto Consciente parece estar, então, na tomada dessa iniciativa que poderia muito bem ser da Prefeitura ou da Câmara, na construção da relevância do debate público numa cidade que mesmo depois das “Diretas Já” não tinha aprendido a importância e o significado da democracia.

A atuação do Voto Consciente em parceria com outras entidades e movimentos importantíssimos na cidade tem dado tão certo que agora, quando pipoca alguma mobilização cidadã questionadora das políticas públicas, como a Bicicletada ou a nascente #webcidadania da Cultura Jundiaí², poucos acham que “isso é coisa de partido ou de político”, e sim que “isso é coisa do Voto Consciente”. “Voto Consciente” passou a denominar quase qualquer carência por parte da população em ser ouvida pela administração pública.

Fico imaginando: quando os poderes legislativo/executivo jundiaienses aderirem ao nosso discurso de forma eficaz, parando de fingir que, por exemplo: 1) a discussão do Orçamento Municipal está participativa com essa abertura insignificante que eles deram, 2) que as obras na Av. 9 de Julho estão transparentes, ou 3) que o “café da manhã com o Prefeito” é uma boa maneira de saber quais são os sonhos dos jundiaienses… Quando a própria população jundiaiense em sua maioria perceber como faz falta seu acompanhamento das políticas públicas, cobrando sua participação nas decisões… Quando os partidos notarem a necessidade de realizar esses “desejos cidadãos” para elegerem seus candidatos… o que o Voto Consciente terá de tão revolucionário?

É assim que, quando vejo a resistente hostilidade dos políticos ou de “cidadãos comuns” às propostas do Voto Consciente Jundiaí e da população civil organizada em geral, a sensação que eu tenho é similar à que Caetano Veloso experimentou ao ser vaiado, no final dos anos 60, por um público universitário que, como ele, resistia à ditadura militar – o estranhamento de Caetano estava justamente no fato de defender as mesmas coisas que aquele público que o vaiava. Resumindo o acontecido, os tropicalistas usavam as guitarras elétricas em suas músicas e naquela época existia um movimento de repúdio às guitarras aqui no Brasil (alegava-se a descaracterização da MPB). No show em questão, em que esses ouvintes viraram as costas para os tropicalistas enquanto tocavam, Caetano fez um discurso inflamado: “Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada! (…) Vocês são iguais a sabe quem? (…) Àqueles que foram no Roda Viva e espancaram os atores! (…) Sabe como é? Nós, eu e ele (Gil), tivemos a coragem de entrar em todas estruturas e sair de todas. E vocês?”³. Digamos que nossos políticos estão – espero – começando a entender alguma coisa.

_________________

¹Reflexão excelente sobre a dicotomia revolucionário/reformista foi feita por Vladimir Safatle aqui.

² Sobre as movimentações do Cultura Jundiaí, pretendo escrever num próximo texto.

³ Neste link dá pra ler e ouvir o discurso na íntegra.

Avatar

Leia mais sobre Outros

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Link original: https://votoconscientejundiai.com.br/entendendo-nada/