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Eu moro na rua eu não tenho ninguém

Publicada em 16/10/2013 às 13:06 | por Simone Pligher

download                 Por conta do sentimento de  medo,  incerteza e  risco  nos centros urbanos vemos crescer na sociedade atitudes hostis,  o isolamento (e desolamento) e as mais diversas formas de afastamento  “o mais longe que se possa”  dos problemas que a própria sociedade criou. Enquanto isso nos entretemos com espetáculos dos mais diversos, que vão desde a televisão até os discursos políticos vazios.

                  A tentativa de “afastar os problemas da nossa frente”  acontece com a imensa quantidade de  lixo que produzimos, com o encarceramento dos condenados,  com os núcleos de pobreza na periferia e agora em Jundiaí esse olhar está focado nas  pessoas em situação de rua, estigmatizados como criminosos potenciais e como seres alheios à condição humana.

              Esse movimento não é novo na história da humanidade, que já passou por vários processos de exclusão como o apartheid ,  o genocídio de raças e etnias, todos enraizados em preconceitos e baseados no pressuposto de que o outro é um estrangeiro, um diferente de nós, alguém que oferece risco e deve ser apartado.

              Sempre que leio ou vejo algum filme sobre esses processos históricos tão humilhantes e dolorosos fico pensando porque as pessoas daquela época não se mobilizaram para impedir que tais atrocidades acontecessem e como isso podemos estar assistindo placidamente, situações similares. Contudo, ao perquirir o funcionamento dos  mecanismos sociais que estabelecem sistemas de crenças podemos entender como o mal e a injustiça se banalizam e acabam sendo incorporados dentro do conceito de normalidade social. Às vezes as pessoas se sensibilizam, mas se sentem impotentes para enfrentar situações complexas, pois na vida moderna não temos um inimigo físico (um ditador tirano), mas várias forças insidiosas que têm permeado a vida comunitária e individual, sendo comum encontrar por toda parte sentimentos de desesperança, depressão, dependência.

                Procurando contribuir com a reflexão voltada aos problemas da cidade, especialmente na questão envolvendo o conflito segurança x direitos das  pessoas em situação de rua, parto da leitura de jornais, da minha experiência como advogada e  servidora pública, da influência familiar humanista – cristã  e sobretudo do incômodo que sinto ao me deparar com essa fúria cega provocada pelo medo e que normalmente gera grandes estragos sociais, muita dor e mais conflito.

                Moro nas proximidades do Anhangabaú, frequento o” Bolão”, as feiras, as festas da Paróquia Santo Antonio, então não estou falando de um lugar distante da realidade levantada pelos moradores do Bairro do Anhangabaú e compartilho do mesmo medo do  espaço público – como quase todos os moradores de centros urbanos, já vivi histórias de assaltos e não negligencio a necessidade de lutarmos por políticas de segurança pública.

               Todavia, não consigo ser leviana e simplista ao ponto de achar que as pessoas que perambulam pelas ruas e dormem nas marquises pela cidade são as responsáveis pela sensação de insegurança e pelo aumento da criminalidade. Ver as coisas desse modo é tentar encontrar mais um “bode expiatório” para uma questão extremamente complexa e multicausal como a criminalidade e que há séculos vem sendo abordadas quase sempre  sob a perspectiva das  consequências, penalizando “as laranjas podres do barril” e ignorando a podridão do barril. E quero deixar claro que não pactuo da ideia de que as pessoas em situação de rua (ao menos em sua grande maioria) estão planejando praticar crimes ou assassinar pessoas pois na  sua grande maioria, “viver na rua” está relacionado a  questões de  saúde mental e problemas familiares.  Invariavelmente essas pessoas tem uma história de vida permeada de violência, abandono e perdas.

                Não se está aqui militando pela defesa da complacência e da irresponsabilidade, mas há que se olhar para o contexto e todos as perspectivas do problema. Não existem soluções mágicas ou fáceis, mas certamente não existem soluções aceitáveis fora do conceito de convivência  e da observância dos direitos humanos, que é uma garantia de todos nós construída ao longo de um processo histórico de luta e que tem como pressupostos a liberdade, a igualdade e a fraternidade .  Dentre esses direitos encontram-se o acesso ás políticas públicas (definidas pelo Estado, independentemente do governo/partido), o direito de ir e vir e o princípio da presunção de inocência (ninguém pode ser considerado culpado por crime até que se tenha uma sentença judicial transitada em julgado). São direitos e não privilégios de alguns.

          É preciso usar a razão para analisar os problemas complexos, sob pena de agirmos sob o jugo das emoções do momento – e termos de lidar com as consequências que fatalmente virão. Mas também é preciso ter empatia e sensibilidade pois a razão não pode, isoladamente, nos ajudar a encontrar soluções para os problemas humanos. A propósito,  antes de crucificarmos as pessoas em situação de rua, vale lembrar a inspiração de Cristo, que também perambulava pelas ruas e curava as mazelas físicas e espirituais com seu amor e compaixão. Acho que é disso que precisamos.

Abaixo algumas histórias de “moradores de rua” que nos ajudam a refletir sobre as limitação dos rótulos e preconceitos que costumamos atribuir às pessoas.

https://educacao.uol.com.br/noticias/2013/08/23/ex-moradora-de-rua-conclui-faculdade-e-se-torna-professora-universitaria.htm

https://zerohora.clicrbs.com.br/rs/esportes/copa-2014/noticia/2013/09/ex-morador-de-rua-massagista-do-cruzeiro-e-convocado-por-felipao-4282043.html

https://noticias.terra.com.br/brasil/videos/ex-morador-de-rua-cria-biblioteca-itinerante-em-sp,371769.html

https://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2013/03/ex-morador-de-rua-e-aprovado-no-instituto-federal-do-es.html

https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-04-12/troquei-r-20-mil-por-uma-familia-diz-ex-morador-de-rua.html

Simone Pligher

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Uma resposta para “Eu moro na rua eu não tenho ninguém”

  1. Avatar Reinaldo Oliveira disse:

    Ola Simone. Legal …. serviu-me como reflexão. Bjos

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