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Fazer política em Jundiaí

Publicada em 25/01/2013 às 16:55 | por Alberto Urbinatti

Há um texto do filósofo espanhol Daniel Innerarity que inicia com a anedota de um indivíduo que subitamente se levanta de sua cadeira – num restaurante cheio de outros indivíduos que conversam – e brada: “Psssst”. Como o som do ruído é alto, supera a demais conversas e todos ficam imóveis, mudando a direção do olhar para aquele indivíduo em pé, que responde à atenção de todos apenas com o balanço da cabeça de um lado para o outro: não é nada. Então o indivíduo senta novamente e todos os outros do restaurante riem daqueles breves segundos que tornaram uma massa confusa em uma massa harmônica. Tudo volta como estava. Innerarity associa a anedota à boa parte das tentativas cidadãs de se fazer política nos dias de hoje.

Muito se fala da perda da “vida política” dos cidadãos. Como mostrou Hannah Arendt, ao retomar o conceito de “vida política” ou “corpo político” presente no pensamento grego, “o surgimento da cidade-estado siginificava que o homem recebera, além de sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos” (2001, p. 40). E o esquecimento por parte dos cidadãos da ideia de “um mundo comum”, do qual deveria fazer parte o “corpo político”, foi para Arendt a explicação da origem de regimes totalitaristas, por exemplo.

O fato é que principalmente durante os dois séculos passados, no desenvolvimento daquilo que tentamos entender como “modernidade”, se intensificaram as transformações entre o que era considerado público e o que era considerado privado. Por um lado, muitos dizem que a grande vilã nesse processo foi a internet, pois, com a intensificação do gasto do nosso tempo diário em redes sociais online, enfrentamos cada vez mais dificuldades para compreender qual é o nosso tempo e espaço privado e qual é o nosso tempo e espaço público. Por outro lado, as iniciativas que surgiram nos últimos anos de investimento por parte de empresas privadas e de governos em tecnologias que buscam estimular o fazer política em meios virtuais fundaram olhares positivos sobre o papel da internet. E é no contexto desse debate que o fazer política –  principalmente pertencente à esfera pública – parece se tornar mais confuso nessas transformações.

É bastante complicado imaginar o rumo que as coisas vão tomar nos níveis locais e se devemos atribuir a culpa da perda da “vida política” mais aos próprios cidadãos ou mais aos governantes. No entanto, observando inúmeras ações que surgiram nos últimos anos, o fazer política por parte dos cidadãos em Jundiaí parece se tornar cada vez mais importante. E por isso, deveríamos imaginar a anedota retomada por Innerarity de um jeito diferente: aquele indivíduo que chama a atenção de todos é um cidadão comum jundiaiense, e os outros são os governantes locais. Ao invés de ele dizer que não é nada com o movimento da cabeça, diz o que quer pra cidade. E os governantes, em vez de rirem, escutam atentos as propostas e transformam em ações públicas. Por fim, nada volta como estava.

Referências:

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2001.

INNERARITY, Daniel.  O Novo Espaço Público. Tradução de Manuel Ruas, Lisboa: Teorema, 2006.

 

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3 respostas para “Fazer política em Jundiaí”

  1. Cara, a imagem é das mais fortes!
    Gostei muito da inspiração e fiquei cheio de vontade de ler esse “O Novo Espaço Público”! Vai trazer na mala?

    abração!

  2. Avatar Amaury Machado disse:

    Falam por aí, nos bastidores da aglomeração urbana, que o montante das arrecadações dos municípios da região, explica a magnificência da excitação do espírito público dos próceres políticos, pelo ecumenismo religioso da vida pública, cujos rendimentos seriam impossíveis de serem conseguidos dentro da iniciativa privada, mesmo para os não analfabetos.

  3. Avatar Patricia Anette disse:

    curti muito! fazia tempo que não lia algo seu, e nossa!

    pega essa: “O termo “idiota” aparece em comentários indignados, cada vez mais frequentes no Brasil, como “política é coisa de idiota”. O que podemos constatar é que acabou se invertendo o conceito original de idiota, pois a palavra idiótes, em grego, significa aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política. Talvez devêssemos retomar esse conceito de idiota como aquele que vive fechado dentro de si e só se interessa pela vida no âmbito pessoal. Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”.”
    M. S. Cortella e R. J. Ribeiro, Política — para não ser idiota. Adaptado.

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