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Jundiaí: a terra do índio gigante

Publicada em 17/12/2014 às 11:49 | por Felipe Andrade

Quantos jundiaienses já repararam no índio gigante que o brasão carrega? Ser do torrão é só ter ido à Paulicéa?

Lógico que comemoro o aniversário de Jundiaí, mas talvez por motivos diferentes, reconheço a importância da influência italiana em nossa cultura, da tradição da extinta Paulicéa, da representatividade da Ponte Torta, da importância do tombamento da Casa Rosa e outros ícones representativos, mas nada custa abordar o saudosismo bairrista que todo jundiaiense carrega de um modo diferente.

Em artigo publicado no Jornal de Jundiaí no domingo (14) onde a cidade comemorou seus 359 anos, o professor e dono de uma formação intelectual admirável, Dr. José Carlos Martinelli, no texto com o título “Confraria de A Paulicéa e a essência de Jundiaí” relatou detalhes da iniciativa do saudoso historiador Geraldo Barbosa Tomanick, a confraria de “A Paulicéa”, ou mesmo a UTI da Paulicéa” iniciativa de “Oswaldão”, outro jundiaiense ilustre, onde frequentadores tradicionais do restaurante ficavam em um local restrito, difenciando-se dos demais com lugares identificados, ação recorrente em muitas casas tradicionais pelo mundo.

Em outro artigo, no mesmo jornal, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, José Roberto Nalini, o também ilustre, escreveu o artigo “Jundiaí faz bonito” onde apresenta os dados que colocam Jundiaí como a 7ª melhor cidade, entre as 100 maiores do Brasil, para se viver com dados que orgulham a maioria dos jundiaienses, se não todos.

Não quero refutar os ilustres jundiaienses de nascença ou por adesão, nem qualquer outro que tenha exaltado a alma do torrão, mas trazer uma perspectiva diferente. Quando se tenta apresentar o lado crítico de todos os assuntos, o risco de ficar com fama de chato ao longo dos anos vai aumentando, mas assumo o perigo com a alma larga e risonha. Já sofri do “saudosismo puro” e tentei fazer parte dos segmentos estreitos de Jundiaí, mas hoje tomo a posição que mais me cabe, personagem do povo jundiaiense, não só os de sobrenome italiano, mas principalmente os Silvas, Santos, Souzas, Carvalhos etc.

Detalhes que não são novidades pra ninguém, mas vale ressaltar

O brasão, por exemplo, cujo os destaques são os tão conhecidos bandeirantes que fundaram a Villa de Jundiahy, não irei aqui debater a tese do arquiteto e membro honorário do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (COMPAC) de Jundiaí, Roberto Franco Bueno, sobre a real data de fundação da cidade por não ter nem de longe o mesmo conhecimento histórico que o mesmo é dotado, porém, desde criança “A lenda do índio gigante” sempre me chamou mais atenção, pois aquele índio entre as árvores é uma imponência escondida em nosso símbolo.

O fato da cidade ter abrigado a grande “Greve dos Ferroviários de 1906” onde operários foram assassinados e sequer foram homenageados com nomes de ruas, praças ou coisas do tipo, ou mesmo pessoas que fizeram resistência à ditadura ou foram torturadas em Jundiaí, cuja a recém-criada Comissão da Verdade da cidade está abordando, não são do conhecimento da imensa maioria do povo.

A primeira greve feminina do país, a história de que não foi Charles Muller que trouxe o futebol para o país, mas que ele nasceu em Jundiaí, o imenso número de comunidades de terreiro na cidade, que ultrapassa 130 casas, e chega a cerca de 30 mil religiosos, sequer são imaginados por muitos jundiaienses.

Uma nova etnografia

Os dados do Censo de 2010 sobre etnias, onde 22,72% se declararam negros, pardos ou indígenas são a realidade que se vê nas ruas? As famílias nordestinas e os filhos e filhas jundiaienses destes são em que proporção à influência italiana? Além de uma Festa Italiana não caberia uma Festa da Nação Nordestina também?

Uma nova visão

Entender Jundiaí como a “Terra da Lenda do Índio Gigante” é entender a cidade que sofreu muita influência indígena e portuguesa no passado, num estado onde o tupi-guarani foi a língua mais falada até o século XVIII, entender que colocar a influência italiana como a majoritária até os dias atuais talvez seja uma visão anacrônica, pois responde a uma cidade de 50 anos atrás.

A frase do atual secretário de cultura de Jundiaí, Tércio Marinho, de que “Jundiaí é um gigante a ser despertado, precisamos colaborar para que a cidade descubra os brasis que tem dentro de si”, é um pouco da visão que quero passar, o desafio de pensar que o ethos da cultura pura tem de ser derrubado, que como qualquer município do Brasil, somos multiculturais e miscigenados e precisamos nos encarar desta forma.

A Jundiaí do Século XXI é a Jundiaí do índio gigante, do brasão visto de outra forma, da tradição respeitada, porém com portas abertas para que novas surjam. Sou do lado materno descendente dos italianos Calandrello e Pavani e do paterno dos nordestinos Andrade e Silva, e tenho um imenso orgulho disto.

O recém-criado Núcleo de Estudos Adamastor Fernandes (NEAF) cumprirá também o papel de contar a nossa história por outros ângulos.

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Felipe Andrade
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