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Não posso fazer nada. Será?

Publicada em 03/01/2013 às 11:44 | por Simone Pligher

Refletindo sobre a missão do Voto Consciente – o controle social, tenho pensado muito sobre o que leva alguém a envolver-se com questões de ordem pública e sobre a qualidade e intenção desse envolvimento.Por conta da internet e das redes sociais vivemos uma época em que o espaço privado acabou ganhando um megafone e hoje sabemos, em “tempo real”, onde as pessoas estão, o que estão comendo, se terminaram ou começaram um relacionamento, tudo muito rápido, volátil, ou como bem conceituou Bauman , líquido.

Em contrapartida, o espaço público parece não interessar às pessoas, exceto pela facilidade de expressar críticas ou opiniões, muitas vezes extravasamento de frustrações. Hoje em dia todo mundo tem opinião sobre tudo mas na prática social tendemos a ser mornos, céticos e distantes da causa comum, ao bem comum ou à sociedade justa.

O ser humano pensante possui uma tendência natural a valer-se no mundo, a engajar-se, indagar, participar, e em alguma medida, inconformar-se com a realidade. Leão de Carvalho (Instituto Latino Americano de Criatividade e Estratégia) explica que a valência existencial – esse sentimento de potência (não se confunde com o delírio de onipotência) nos move em direção a uma visão ou ação criativa, sendo necessário, para tanto, “que o sujeito se assuma no mínimo como potente para intervir. Noutras palavras, que se sinta como protagonista. Tal consciência ou sentimento pode ter as mais variadas procedências. Até onde conhecemos a espécie humana, podemos resumir: todo ser humano é dotado naturalmente desse impulso a valer no mundo”.

Todavia, frequentemente nos apegamos a uma ilusão de impotência, como se nada pudesse ser feito, individual ou coletivamente, para revisar a ordem estabelecida, aceitando passivamente o discurso de que não há alternativas. O mais impressionante é olhar em perspectiva e observar toda a luta pela liberdade humana se reduzir à satisfação de poder escolher entre centenas de produtos de beleza ou canais de televisão.

No ano que se findou tivemos a experiência de criar, dentro da perspectiva de mobilização social do Voto Consciente , o encarte “Ficha Pública” contendo o compromisso dos candidatos a prefeito com as propostas do concurso “Cidadonos” (https://cidadonos.org.br) , além do ranking da avaliação dos vereadores da cidade. A forma coletiva de construção e financiamento (crowfunding) são exemplos vivos desse impulso transformador e comprovam que a intervenção no coletivo é possível, desde o homem assuma o papel de protagonista, adotando uma atitude mental a partir do qual pode surgir o processo criativo.

Para 2013 desejo que todo cidadão jundiaiense se empoderem de sua capacidade transformativa e fiscalizadora, acompanhando e cobrando (de maneira respeitosa e construtiva) as ações políticas da cidade, afinal, se queremos tanto paz, amor e justiça, temos que agir como co-construtores não é mesmo?

1-BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. 258p

Simone Pligher

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4 respostas para “Não posso fazer nada. Será?”

  1. Simone, “o que leva alguém a envolver-se com questões de ordem pública? e como olhar para a qualidade e intenção desse envolvimento?”

    Tua questão central também me anima.

    “O ser humano pensante possui uma tendência natural a valer-se no mundo, a engajar-se, indagar, participar, e em alguma medida, inconformar-se com a realidade. Leão de Carvalho (Instituto Latino Americano de Criatividade e Estratégia) explica que a valência existencial – esse sentimento de potência (não se confunde com o delírio de onipotência) nos move em direção a uma visão ou ação criativa, sendo necessário, para tanto, “que o sujeito se assuma no mínimo como potente para intervir. Noutras palavras, que se sinta como protagonista.”

    Sentir-se como potente, reconhecer-se como sujeito?
    Sentir que suas ideias, sonhos e propostas influenciam decisões?

    Vejo que nossa essência ecoa aí e o Cidadonos ganha corpo.

    E sobre a “qualidade”?

    Quais elementos vem conhecendo sobre isso?

    abraços do henrique

  2. Avatar Marcelo F. Lo Monaco disse:

    Cara Simone,

    na linha das “gerações de direitos”, exaustivamente dissecada pelos estudiosos do direito constitucional e direito internacional dos direitos humanos, compartilho o entendimento de que a evolução das sociedades também se opera por “ondas” – tema em voga há algum tempo em diversas manifestações das Defensorias Públicas, mas cuja origem remonta ao final dos anos 60, na obra “A Terceira Onda”, de Alvin Tofler, doutrinador da ciência da Administração.

    A oportunidade advinda com o uso das redes sociais na internet, permitindo voz aos excluídos, certamente fará avançar a participação popular em temas coletivos, de interesse comum, privado e público.

    Possivelmente, esse avanço será paulatino, inicialmente, podendo vir a se acelerar conforme o feedback que os provocadores tiverem e disseminarem dentre os demais – ainda – incrédulos, até o dia em que, suponho, teremos uma sociedade que participe cotidianamente pelo simples fato de entender que deve participar – ainda estamos na fase de indivíduos, na sociedade, que perceberam que podem participar – sem esperar um retorno ou mudanças decorrentes dessa participação.

    Não é demais lembrar, todavia, que na vida, como no teatro, há atores – poucos, e nem todos podemos ser atores – e há expectadores – muitos, e nada de errado há em apenas assistir – , e essa parece ser a ordem natural das coisas.

    • Marcelo, seja bem vindo a este espaço! 😉
      Espero que alguns bons debates ocorram mas, no melhor estilo “em rede”, que as inspirações propaguem novas conversas!

      Sobre estas “redes” é que olho para teu argumento de “onda” e acrescento o necessário plural! Plural de estruturas e organismos autônomos e que passam a construir ondas independentes!

      Nesta chave, que me interessou muito, pergunto:

      Qual a onda da Escola de Governo?

      abração do henrique

  3. Avatar Simone disse:

    Obrigada pelos valiosos comentários Marcelo e Henrique!
    Sobre qualidade, Henrique, acho que é um tema para reflexão profunda e necessária no nosso modo de vida ocidental super racionalizado. Se quiser esquentar os miolos Indico o livro “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”, que, aliás, preciso reler. Mas também fiquei pensativa sobre o tema ao assistir um documentário sobre o cantor octogenário Tony Bennett (um expoente na arte de cantar) quando ele fala sobre a necessidade de se cuidar da qualidade, que ele expressa, por exemplo, no contínuo aperfeiçoamento e cuidado. Vi que essa é uma preocupação legítima e pertinente que talvez faça parte do modo de ser de uma geração (meu pai também é assim) e a modernidade, por ser tão “líquida” não consiga sustentar…são palpites.
    Marcelo, concordo com você que estamos na onda das redes sociais, certamente um instrumento que pode ser utilizado para construção de idéias e agregamento de pessoas (para o bem ou para o mal) e que algumas pessoas possuem um perfil mais acentuado nas questões de empreendorismo social.
    Contudo, acho que mesmo a inércia produz algum resultado e considerando uma visão sistêmica, as atitudes e omissões se influenciam mutuamente. Desconfio que na vida não dá para ser expectador, de vez em quando temos que sair da poltrona…rs,
    Quando se fala em protagonismo talvez venha uma imagem (porque vivemos na era da imagem) de alguém liderando multidões em prol de alguma causa e aí já surgem os delírios e vaidades, uma coisa meio megalomaníaca, egoica e distante da realidade.
    Penso numa perspectiva mais simples de ativismo, a que surge da tomada de consciência de fazer parte do mundo e de podermos exercer um papel positivo e construtivo, cada um a seu modo e em seu lugar.
    abraços
    Simone

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