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Nós não somos o gigante

Publicada em 23/06/2013 às 18:37 | por Patricia Anette

“A psicanálise é que não está gostando nada da situação”, disse um amigo inteligente e ácido além da conta, durante a marcha jundiaiense do dia 20 de junho. “Porque esta manifestação é um desabafo coletivo e de graça, e os psicanalistas não estão ganhando nada com isso”.

Fui à manifestação em Jundiaí para ouvir o que seria dito, e não para manifestar, propriamente. Uma série de fatores me levou a esse posicionamento: por mais que o mote principal do protesto fosse dar apoio à causa das tarifas de transporte público coletivo no país inteiro – e com isso eu concordo –, no evento do Facebook já se liam muitos outros objetivos, ligados a um descontentamento geral da sociedade brasileira. E manifestar por tudo pode facilmente acabar em manifestar por nada.

No começo, estranhei: ninguém cantava nada, todos parados, conversando com seus amigos, na av. Nove de Julho, embaixo do pontilhão da Av. Jundiaí. Muita, muita gente. Começamos a andar para subir a Av. Jundiaí. Fiquei na linha de frente do movimento, e mesmo lá, ninguém gritava nada. Levantavam cartazes, estavam de branco, pintados de verde e amarelo, levavam bandeiras do Brasil, estavam felizes por terem tomado as ruas talvez pela primeira vez na vida… mas não tinham nada a dizer. Nada para exigir em voz alta.

Depois de algum tempo, entoaram timidamente “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” e outros hinos já bem conhecidos. Durante toda a manifestação, ouvi esse e apenas estes gritos: “vem pra rua”, “sem violência”, “ei, Dilma, vai tomar no cu”, “ei, Rede Globo, vai tomar no cu”, “contra as atitudes do governo” (este cantado por três simpáticas menininhas de 10 anos) e outro mais complexo de que não me lembro direito porque não foi muito repetido, algo como: se a corrupção do governo não parar, é o Brasil que vai parar.

Ah, não, me esqueci do mais bizarro de todos: “ão, ão, ão, a Dilma é sapatão”. Preciso comentar algo? Deixemos apenas registrado o absurdo desse grito, sem nenhum sentido. Não foi pra dizer que na hipótese de nossa presidente ser homossexual, a Cura Gay era um absurdo. Não foi pra dizer nada. Em muitos momentos como esse, vi puro carnaval: cada um diz o que quer, ninguém é julgado por isso, é festa da nação brasileira.

Além do hino nacional, é claro. Porque a reivindicação aqui é ser brasileiro e estar descontente com o país. Porque as manifestações tomaram 80 cidades no Brasil inteiro, uma coisa linda. Ver gente nas ruas, se manifestando pacificamente sobre causas mais ou menos humanitárias, é essencialmente bonito. Não há nada de errado em cantar o hino, vestir-se com a bandeira e exigir que este seja um movimento apartidário – as pessoas organizam-se como bem entendem.

Porém, minha maior convicção, mesmo antes de ir ao ato de Jundiaí, é que há um erro grave no posicionamento destas pessoas. O gigante não acordou. Não quero criticar por criticar um simples grito de guerra. Mas é preciso notar que nós não somos o gigante. Nós somos os Davis. Se nós acordamos, o gigante Golias ainda dorme bem confortavelmente, e nós não temos nem a dimensão de onde ele começa e onde ele termina: é por isso que estamos atirando para todos os lados, e não de forma cabal, contra seu olho, como fez Davi.

Nós atiramos, nessas passeatas, contra a corrupção no Brasil, o mensalão, as pessoas acomodadas, a tarifa zero, o transporte público coletivo, a truculência da PM, a copa do mundo, a educação, a saúde, o SUS, o Ministério Público, o Feliciano, a Rede Globo, todas as emissoras de TV, os bancos, os partidos políticos… E não conseguimos encontrar ainda o olho do gigante, pra fazê-lo se mexer com vigor. Atirando para todos os lados, uma manifestação linda de gente bem intencionada acaba virando um grande Reveillon fora de época. Aqui em Jundiaí, pelo menos, só faltou o espumante e a contagem regressiva. Sarcasmos crônicos à parte, a origem de “reveillon” em francês, é justamente “acordemos”. Acordemos, acordamos. E agora?

Da mesma forma é que, xingando a Rede Globo, essas manifestações estão rumando exatamente ao que aconselhou Arnaldo Jabor nesta emissora. Não me entendam mal: a crítica de Jabor sempre será descabida e mesquinha, descolada da realidade. Não há “ausência de causas” para lutar, jamais – diferentemente do que ele disse. Contudo, decidiu-se ir MUITO “além dos 20 centavos” – conselho de Jabor – e caiu-se nesse buraco negro, ilusionista, nessa querência de que tudo mude do dia para a noite, e de que tudo é culpa da corrupção ou, pior, do governo atual.

A pergunta que fica é: qual é a tua hipótese de onde está o olho do gigante, qual é a tua causa para apedrejar o gigante, que ainda dorme, indubitavelmente?! Se perguntarmos a todos que se manifestam atualmente no Brasil ou em Jundiaí, essas respostas serão muito diversas. O fato é: não se trata mais, nem um pouco, dos vinte centavos. O Movimento Passe Livre se retirou desse contexto depois do dia 20, já que a temática mudou.

Excelente que tenhamos essa incrível pressão popular para fazer refletirem nossos representantes. Enquanto isso, contudo, nós, os Davis, temos que cumprir nossa parcela de reflexão. Um desabafo coletivo por si só pode não trazer ao país conquistas políticas relevantes. O povo brasileiro, que só agora ensaia sair de sua inércia, julga poder dizer que todo o resto estava dormindo: uma falácia. Julga também, de forma bastante otimista, que a culpa nunca esteve em si, mas no outro – nunca na população, sempre no governo que esta elegeu. É preciso que essas pessoas, que felizmente começaram a se mover por alguma ou por várias causas coletivas, continuem a se importar com a coisa pública, e sigam a pensar, a conversar, a ler sobre suas cidades, estados e país. Que sigam cobrando de seus representantes, como estão fazendo agora: é só assim que nossos políticos parecem se apressar para fazer o melhor. Se agora os manifestantes estão desorganizando o Brasil, tirando da bandeira aquele terrível “ordem e progresso”, é possível que também estejam organizando. Pra sempre Chico Science e Nação Zumbi:

“E com o bucho mais cheio começei a pensar

Que eu me organizando posso desorganizar

Que eu desorganizando posso me organizar

Que eu me organizando posso desorganizar”

 

 

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3 respostas para “Nós não somos o gigante”

  1. Avatar Luiza disse:

    O olho do gigante é a educação. Ou a falta dela, na verdade. A partir do momento que a educação no Brasil for levada a sério, que nossas crianças, nossos jovens tiverem acesso a escolas bem estruturadas, professores bem preparados e bem remunerados, eventos culturais e museus. Crianças nas escolas, fora das ruas, sendo educadas por pais e professores que também tiveram acesso a uma boa educação. Aí sim, acredito, que tudo começará a mudar, todos saberemos que caminho seguir. Aí sim, nossas reinvidicações serão feitas de forma consciente e inteligente. Leva tempo.

    • Avatar Patrícia Anette disse:

      Sim, com certeza, Luiza. Dada a nossa pouco estruturada educação pública e à nossa educação particular quase totalmente técnica – meramente voltada para o vestibular -, o que se passa hoje no Brasil já está de bom tamanho…

  2. muito,muito bom Patt.Tem gigante que tem o olho na testa.O gigante que eu falo tem o olho na barriga. E aí repetimos…” e com o bucho mais cheio comecei a pensar’

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