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Nota sobre o assassinato de Marielle Franco

Publicada em 16/03/2018 às 16:39 | por Comunicação Voto Jundiaí
“Impossível falar do assassinato de Marielle Franco, vereadora eleita pelo Rio de Janeiro com a quinta maior quantidade de votos, sem falar do contexto em que estamos.

Em Fevereiro, a Câmara Federal aprovou a Intervenção Federal no Rio de Janeiro. Logo em seguida, Marielle se tornou relatora da Comissão que acompanharia as ações da Intervenção Federal, fiscalizando o Poder Público, colhendo dados, solicitando informações e propondo reuniões. Quatro dias atrás, expôs o que aconteceu em Acari/RJ: um esculacho com a população, genocídio negro, corpos em valas. Ontem, o corpo na vala era o de Marielle.

E essa vala foi cavada com esmero por toda uma sociedade que se nega em debater raça, classe e gênero. Cavada por quem ainda insiste na falácia da democracia racial e também por quem debocha da luta por “direitos dos manos”. Cavada por quem ainda insiste na falácia da democracia racial, já tão bem desmascarada por Abdias do Nascimento. Cavada por racistas, por misóginos e por omissos.

Carolina Maria de Jesus, que também faria seu aniversário no dia de ontem, nos diz em seu ‘Quarto de Despejo’ que a fome deveria nos ajudar a refletir sobre o futuro. Com o Brasil batendo às portas da miséria em grande escala novamente, revisitando a fome tão próxima, deveríamos ouvir Carolina. E Marielle a ouviu, pois “cria da maré” como ela mesma se apresentava, representou os seus. Não poderia se esquecer das mães negras, periféricas e de seus filhos também negros e periféricos porque foi uma dessas filhas e era uma dessas mães. E não é possível ser indiferente à própria história, ao próprio povo.

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, foi o que disse Angela Davis. E Marielle se movimentou. Se movimentou por creches, se movimentou em uma estrutura patriarcal, heteronomativa, misógina e racista. Marielle se movimentou em um estado genocida.

Marielle se movimentou e venceu: Quarenta e seis mil e quinhentos e dois votos. Quinta vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro em 2016. E todos esses números foram reduzidos à nove.

Nove tiros. Nove tiros de fuzil silenciaram mais de quarenta mil pessoas. E Marielle. Virou estatística junto de Amarildo Dias de Souza, desaparecido após ser detido pela polícia militar na porta da sua casa na Favela da Rocinha. Junto também de Claudia Silva Ferreira, morta após ser arrastada por um carro da PM após ser baleada em uma troca de tiros entre policiais e traficantes no Morro da Congonha, em 2014. Junto dos cinco amigos que foram alvejados por mais de 50 tiros de fuzil da PM na Favela da Pedreira. Junto de Luana Barbosa, morta após ser espancada por três agentes da Polícia Militar na frente do seu filho, em 2016. E muitos, muitos outros negros e negras. Um a cada 23 minutos.

Engana-se quem ainda acredita na fábula da Intervenção Federal. Marielle não se enganou, sabia que tratava-se de um teatro, de medida paliativa e eleitoreira no avanço da criminalização da pobreza e do genocídio do povo negro. Ela sabia que se tratava, mais uma vez, do racismo estrutural que usa da truculência para intimidar e exterminar o pobre, o preto, a preta que tem voz.
Na estrutura racista as vidas negras não importam. As vidas LGBTs não importam. As vidas das mulheres não importam. A dignidade humana não importa. Tanto não importa que, ao ser assassinada, certificaram-se de lhe acertar a face para que retirassem sua humanidade e sua dignadade também em sua despedida. Caixão lacrado.

Angela Davis é sábia quando diz que não basta não ser racista, é necessário ser antiracista. Ser antiracista numa população onde 54% são negros e onde a cada 23 minutos um de nós é assassinado. Ser antiracista em um país forjado por mãos negras traficadas e escravizadas e que é racista em sua base.
Se Nina Simone disse que “liberdade é não ter medo” hoje eu, mulher negra, mãe, feminista, militante de direitos humanos, digo que não sou mais livre. Sobra medo.

O Brasil já é aquilo que tememos.
É a banalização do mal.”

Este texto foi originalmente publicado pela Rede Jundiaí 50-50.

Mariana Janeiro é especialista em Filosofia e Semiótica, militante do feminismo negro e mãe do Gael e do Raul.

 

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