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O centro da cidade, o patrimônio cultural e arquitetônico e a questão da publicidade.

Publicada em 01/07/2013 às 00:47 | por Marília Scarabello

 

“O direito ao passado constitui uma das dimensões fundamentais da plena cidadania” (Maria Clementina Pereira Cunha, 1992.)

 

Este artigo pretende discutir de que forma a publicidade externa de estabelecimentos comerciais do centro da cidade de Jundiaí influencia na valorização/ do patrimônio cultural e arquitetônico presente neste bairro e na apropriação deste patrimônio pela população da cidade.

O centro da cidade possui algumas construções tombadas e muitas outras de valor histórico, que nos contam um pouco a trajetória da cidade, sua formação e desenvolvimento. O conjunto destas construções que são consideradas relevantes para a permanência de uma identidade local é o que podemos chamar de “patrimônio cultural”.  Podemos citar diversas construções inseridas neste patrimônio, tais como o Teatro Polytheama, o Museu do Solar Do Barão, o prédio da Pinacoteca, dentre outros não destinados para atividades culturais. Não é a toa que tantos edifícios importantes estão localizados no centro, pois foi a partir dele que a cidade nasceu e cresceu.

O centro é um local de uso misto (uso residencial,comercial e de serviços), que recebe diariamente uma grande quantidade de pessoas, vindas de todos os cantos da cidade, e que portanto, é bastante atrativo para os comerciantes e prestadores de serviços.

A presença da publicidade no centro é reflexo desta lógica, desta movimentação e tem como objetivo claro atrair os consumidores para dentro de seus estabelecimentos. Por muitos anos, a colocação de anúncios, logotipos e informações nas fachadas dos imóveis era livre, isto é, ficava a critério do comerciante determinar o tamanho de sua publicidade, desde que não invadisse ou impedisse o trânsito normal das pessoas.

Em virtude disso, há alguns anos era completamente impossível visualizar as fachadas originais dos imóveis, uma vez que a grande maioria estava ocupada por painéis, estruturas metálicas de fechamento, lonas esticadas, etc que cobriam praticamente tudo, sem contar ainda com os diversos anúncios verticais que terminavam por tornar o passeio pelo centro uma “overdose visual”.

A conseqüência lógica desta overdose ao cidadão que percorria as ruas do centro era a de total inércia, dada a quantidade excessiva de estímulos visuais, que uma hora saturavam os sentidos, fazendo com que as ruas ficassem absolutamente iguais, sem grandes referências que não fossem as grandes publicidades.

Isto é, a propaganda em excesso, efêmera, sem um vínculo com o lugar, camuflava a real identidade do centro da cidade.

Foi pensando em resgatar esta identidade que, em 1998, foi criado o projeto “Memórias”, que deu origem a uma série de livros de estudos sobre o centro da cidade, sobre lugares importantes e marcantes na nossa cidade, sobre índios e africanos na Jundiaí Colonial e finalmente, sobre a concepção e implantação do projeto “Acerte o Centro” (2008), que definiu padrões para a publicidade na área do polígono, procurando resgatar as memórias do local e eliminando a poluição visual.

Esta última publicação da série “Memórias” teve seu projeto implantado no centro depois de uma série de ações (dignóstico, propostas, reuniões e levantamentos), requalificando a área, ampliando calçadas, recuperando as fachadas, padronizando letreiros, cores e toldos. O projeto foi consolidado na Lei 6.984/2007 que instituiu o Programa de Execução e Adequação das Calçadas do Município e no Decreto 20.923/2007, que regulamentou a publicidade no Polígono de Proteção do Patrimônio Histórico. Após este projeto piloto, novas leis sobre publicidade foram consolidadas na cidade, buscando evitar excessos. Para o centro da cidade, como já foi falado, o decreto previa não só conter a influência da publicidade na paisagem, como também padronizar as construções, de modo que a arquitetura pudesse ter destaque.

Houve um momento em nossa cidade, portanto, em que foi gerado um embrião do que poderia ter se tornado um projeto maior, da valorização do patrimônio através de ações contínuas no centro, que estimulassem inclusive o turismo e um circuito cultural, já que o bairro possui boa parte dos equipamentos culturais, e a primeira etapa, de “limpeza” já teria sido feita. O que aconteceu, no entanto, foi que o projeto, executado de forma louvável, terminou nele mesmo, isto é, nada além dele foi feito além das leis restritivas para a publicidade e de uma fiscalização que, por anos, tentou impedir que antigos vícios voltassem a ocupar as fachadas e que notadamente, falhou (basta dar uma volta pelo centro para notar diversas publicidades irregulares, com áreas que extrapolam o permitido por lei, toldos fixos ao invés dos móveis previstos, etc).

É importante dizer que a cidade não perdeu por completo a implantação deste projeto, mas que aos poucos, está se esquecendo dele. Parte da responsabilidade é do governo, que por alguma razão não consegue fiscalizar e punir de forma efetiva as irregularidades, parte da responsabilidade é do cidadão, que não se importa com a questão, não possui crítica ou instrumentos para observar o que acontece no seu entorno ou que apenas se preocupa com o seu próprio negócio, sem olhar para os lados ou sem pensar no macro.

Muitos cidadãos, no entanto, desejam ver um centro bonito, bem equipado, com mobiliário urbano bem distribuído e vida cultural intensa. Mais do que isso, muitos desejam que a cidade valorize mais seu patrimônio, a ponto de torná-lo parte de um circuito cultural fixo, que chame a atenção da população que aqui vive e o desconhece por completo e que atraia pessoas de outras cidades para vivencia-lo. E este circuito pressupõe um projeto gráfico distinto, bem distribuído, que possa indicar os locais a serem visitados e orientar a população. Obviamente, placas e mapas de orientação turística e cultural só serão visíveis e apropriados pela população se estiverem em um local onde não haja poluição visual, onde possam ser efetivamente destaque (e não mais um item perdido na paisagem). Os pontos turísticos indicados também devem se destacar na paisagem e não estarem perdidos entre faixas, placas, painéis, etc. Afinal, o que deve chamar mais a atenção no centro são as nossas memórias e tudo o que elas contêm.

É por isso que é tão importante nos debruçarmos sobre as leis e decretos vigentes, conquistas nossas de anos atrás, e exigirmos que sejam cumpridos, pois é a partir deles que todo o resto poderá nascer e se desenvolver.

Nós temos o embrião, temos a vontade, temos todo um material de pesquisa pronto e impresso, feito pela Prefeitura, temos as leis em vigor. Não vamos perder todo esse tempo gasto, não vamos deixar as leis existirem só no papel. Não podemos deixar a série “Memórias” no fundo da gaveta. Vamos tornar o centro o lugar que queremos: vivo, rico e belo como nos cartões postais de antigamente.

 

 “Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de supresa em surpresa, a gente como que se encontra, fica contente e feliz, e se lembra das coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós…”

(Lúcio Costa citado por Segawa, Hugo. Arquiteturas do Brasil. São Paulo: Edusp, 1997.)

 

foto 3

A transformação da fachada com a remoção da publicidade. Antes e depois.

foto 4

A imagem mostra como ficaram as fachadas após o projeto “Acerte o Centro”.

foto 2

O projeto de publicidade- padrão.

 

foto 1

Antes e depois.

 

foto 1 (1)

A capa do primeiro volume da série “Memórias”.

foto 2 (2)

A capa do último volume da série “Memórias”. Acerte o centro.

*Leis e decretos de Publicidade do município:

https://cidade.jundiai.sp.gov.br/PMJSITE/portal.nsf/V03.02/smpm_publicidade?OpenDocument

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3 respostas para “O centro da cidade, o patrimônio cultural e arquitetônico e a questão da publicidade.”

  1. Avatar Mariana Benatti disse:

    Marília, muito bom o texto! Essas discussões também estão presentes no Compac. Infelizmente, como não há este cuidado, como vc mesma mencionou, o projeto que começou bom acaba se esvaindo pelo esquecimento e falta de fiscalização, talvez até por falta de um cuidado educativo dos órgãos responsáveis para com os proprietários/locatários desses imóveis na região do Polígono. Concordo inteiramente com a questão levantada do circuito cultural possível no centro, e tenho a opinião de que ele já existe, embora seja invisível – o problema é que torna-lo visível e, assim, reconhecível como tal, exige uma série de atitudes e medidas que, acredito, estão ainda muito longe de serem tomadas. Porque de promessas a gente está cheio, mas ações efetivas, nada. Nem digo começar grande, digo no começar pequeno, até mesmo com a questão das placas que citei em um artigo meu – acho que um processo se solidifica melhor quando vai passo a passo e não querendo fazer uma obra faraônica. Abraços e parabéns!

  2. George André Savy George André Savy disse:

    Lembrando que dentro do projeto de revitalização do centro, consta a retirada dos antigos postes com a fiação aérea e o cabeamento subterrâneo, contribuindo para aumentar o visual limpo. Notem nas fotos que não existem os fios diante das fachadas dos prédios. Esse trabalho de aterramento da fiação lamentavelmente foi parcial. Entre a Engenheiro Monlevade e a Secundino Veiga foram colocados os novos postes e ficaram os antigos. A difícil relação entre a prefeitura e a CPFL paralisou a continuidade do aterramento da fiação, que deveria se estender por toda a região central, desde o Largo São Bento até a Câmara Municipal. Diante dessa situação, quem for fotografar o Politheama, o Conde do Parnaíba, a Igreja de São Bento e outros prédios históricos, terá a incômoda presença dos fios na foto. Em várias cidades a fiação aérea vem sendo substituída pela subterrânea, mas em Jundiaí esse trabalho foi paralisado.

  3. Avatar PR disse:

    Onde podemos encontrar as publicações “Memórias”?

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