Voto Consciente Jundiaí | https://votoconscientejundiai.com.br

O que podemos aprender com a pesquisa “Cultura em SP”?

Publicada em 26/01/2015 às 10:07 | por Colunista Convidado

Artigo de Fábio Vianna Peres

Recentemente foi realizado em Jundiaí o seminário “Hábitos Culturais dos Paulistas”, onde foram apresentados alguns dos resultados colhidos na pesquisa Cultura em SP, promovida pela JLeiva Cultura e Esporte e realizada pelo Datafolha. A pesquisa por si só já é importantíssima, já que é possivelmente a primeira do gênero a ser realizada no estado. Os dados colhidos se mostram reveladores, nos dando um retrato de como o paulista se relaciona com a cultura. Porém, mais do que os dados revelados no levantamento, são as leituras que podemos fazer deles que serão de vital importância na formulação de estratégias, por artistas, gestores e responsáveis pelas políticas públicas para a cultura.

Jundiaí foi uma das cidades incluídas na pesquisa, o que nos dá a oportunidade de levantar algumas questões sobre como a cultura vem sendo trabalhada na cidade.

O primeiro dado, é claro, é o dos habitantes que realizam alguma atividade cultural em seu tempo livre. Em Jundiaí esse percentual foi de 31%, número mais alto do estado, com média de 25%. Mas um outro dado é que, destes 31% que fazem alguma atividade cultural no tempo livre, 14% declaram que esta atividade é ler livros, em casa. Este é um primeiro dado que chama a atenção. As atividades que podem ser praticadas em casa – ler, ouvir música, assistir a filmes – são as mais praticadas. Podemos perceber que outras questões precisam se consideradas na formulação de ações culturais, principalmente a da mobilidade e da segurança.

Outro ponto que merece uma reflexão é o das preferências do público. O gênero musical preferido pela maioria é o sertanejo, com 52%; no cinema a preferência é para aventura e comédia, 59% e 51% respectivamente; no teatro, 85% preferem comédias; a dança preferida também é a sertaneja, mencionada por 43%. Até aí, nenhuma surpresa, tratam-se dos gêneros mais populares e a forte presença do sertanejo em uma cidade do interior é algo esperado. São estes gêneros também que estão associados a cultura de massas e a indústria cultural, contando, portanto, com um forte aparato de promoção.

A diferença entre o grau de conhecimento dos espaços culturais e o quanto são frequentados também chama a atenção: Apesar de ser conhecido por 89% do jundiaienses, somente 11% já foram alguma vez ao Teatro Polytheama.

Mas um outro dado apresentado pela pesquisa me parece ser um dos mais eloquentes. Ao serem perguntados como escolhem a programação cultural, 44% dizem que é através da televisão e apenas 3% o fazem a partir de indicação de professores (metade da média no Estado, 6%, e bem abaixo de Santo André, com 12%).

Este dado – ainda que a forte participação da televisão seja previsível (seguida pela internet, com 37%) – revela o quanto a cultura tem se transformado cada vez mais em entretenimento, deixando de lado seu papel de formadora e de construtora da identidade. Assim, ao tratar de cultura, cada vez se fala mais em consumidores, ao invés de cidadãos. Isto clarifica a grande predominância de gêneros pertencentes a indústria cultural e controlados por grandes conglomerados empresariais. Curiosamente, o que motiva o expectador a sair de sua casa é justamente o que ele já consome em casa, a música que toca na novela ou no programa de auditório, o comediante do programa de fim de noite, o teatro que tem uma cara conhecida no elenco.

Na outra ponta destes dados, somente 3% levam em consideração indicações de seus professores, o que nos leva a perguntar, quantos professores chegam a fazer alguma indicação cultural a seus alunos? E mais, quantos professores frequentam eventos culturais em seu tempo livre?

Este dado deixa transparecer o quanto a formulação de políticas públicas locais para a cultura vêm, nos últimos anos, sendo cada vez mais voltadas ao evento em detrimento do conteúdo. Mostra também que educação e cultura parecem andar com passos desencontrados, ao invés de terem suas ações permeadas por um diálogo constante. A cultura tende a ser tratada cada vez mais como adereço, deixando de ter um papel estrutural na formação da identidade e no aprimoramento da sociedade.

A pesquisa completa pode ser consultada em https://jleiva.com.br/pesquisa_sp/cidades.html#jundiai

Colunista Convidado

Leia mais sobre Outros

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Link original: https://votoconscientejundiai.com.br/o-que-podemos-aprender-com-a-pesquisa-cultura-em-sp/