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O tempo, o desenho e a memória da cidade

Publicada em 28/02/2013 às 23:48 | por Lígia Luciene Rodrigues

Domingo passado visitei a exposição “Interlacing” do artista contemporâneo chinês Ai Weiwei no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, que me fez lembrar da frase, do arquiteto e historiador da arquitetura italiano Leonardo Benévolo, “O processo de mudança é tão rápido que uma geração não conhece a cidade em que viveu a geração anterior”. Nas fotos de Weiwei, principalmente na série “Provisional Landscapes [Paisagens provisórias]”, que retratou Beijing e outras cidades chinesas entre 2002 e 2008, é evidente essa ação. No caso chinês, a rapidez desse processo de mudança parece elevado à milésima potência, visto que no intervalo de apenas 2 ou 3 anos, a paisagem urbana de algumas cidades se transforma completamente. Os antigos prédios típicos chineses são demolidos em questão de horas, para a implantação de novos edifícios, que para refletir uma determinada ideia de progresso em nada se parecem com o estilo arquitetônico antigo, não carregam nada do desenho da cidade da geração anterior. Esse é um dos aspectos presentes na mostra de Weiwei, além da crítica visual, social e política de seu trabalho, na obra do polêmico artista podemos ver clara a relação arte e vida.

Foto da série Paisagens Provisórias de Ai Weiwei

Foto da série Paisagens Provisórias de Ai Weiwei

Anos atrás a mesma citação de Benévolo me veio à mente novamente, quando vi no acervo fotográfico do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí – Solar do Barão, umas fotos da Vila Arens dos anos 1940. Não acreditei que no bairro existia, por exemplo, um pergolado carregado com uma planta trepadeira proporcionando uma bela sombra para os bancos que ficavam embaixo dele, criando uma excelente área de permanência, local que possivelmente contemplava uns 5 dos 12 critérios para determinar um bom espaço público do Jan Gehl (escrevi sobre eles mês passado, aqui).

 

Pergolado da Avenida Dr. Olavo Guimarães, na Vila Arens, aproximadamente década de 1940. Acervo do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí.

Pergolado da Avenida Dr. Olavo Guimarães, na Vila Arens, aproximadamente década de 1940. Acervo do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí.

 

Esse pergolado ficava na Avenida Dr. Olavo Guimarães, local de grande circulação de pessoas e que atualmente é conhecido como o centro comercial do bairro. Ao longo dos anos, essa via teve o seu desenho modificado várias vezes e hoje possui apenas o entorno da igreja da Vila Arens e sua praça como locais que podemos determinar como um bom espaço público, sendo que recentemente a praça sofreu uma reformulação, perdendo algumas árvores e recebendo asfalto e cerca.

 

A Avenida Dr. Olavo Guimarães com a igreja da Vila Arens, aproximadamente década de 1940. Acervo do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí.

A Avenida Dr. Olavo Guimarães com a igreja da Vila Arens, aproximadamente década de 1940. Acervo do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí.

Hoje em dia a Avenida Dr. Olavo Guimarães e seu "canteiro" central cinzento. Imagem tirada do Google Street View, em 2012.

Hoje em dia a Avenida Dr. Olavo Guimarães e seu “canteiro” central cinzento. Imagem tirada do Google Street View, em 2012.

 

Ao analisar apenas as transformações dessa avenida na história do bairro, lembro-me de quando o canteiro central era realmente um canteiro com plantas e o revestimento do passeio um combinado de pedras pretas e ocre do mosaico português. Hoje é um passeio de cimento cinza sem graça.

 

À esquerda, parte do canteiro central da Avenida dr. Olavo Guimarães na década de 80. Acervo Sebo Jundiaí Maurício Ferreira.

À esquerda, parte do canteiro central da Avenida dr. Olavo Guimarães na década de 80. Acervo Sebo Jundiaí Maurício Ferreira.

 

Avenida Dr. Olavo Guimarães. Imagem tirada do Google Street View, em 2012.

Avenida Dr. Olavo Guimarães. Imagem tirada do Google Street View, em 2012.

É óbvio perceber que as mudanças foram feitas para atender a demanda de espaço para carros e vagas para estacionar, enquanto isso, o espaço para as pessoas desfrutarem foi ficando cada vez menor. Esse é o reflexo de uma época em que o valor social e a importância dada ao carro alterou o desenho da cidade. O espaço urbano detém as qualidades físicas simultâneas aos seus atributos sociais, portanto não é um fenômeno estático, pois encontra-se em uma permanente transformação devido justamente ao seu caráter social.

A configuração antiga da cidade permanece na memória dos moradores mais velhos e nessas capturas fotográficas. Fico pensando em como uma fotografia, muitas vezes trivial, de uma rua da cidade, pode anos depois se transformar em um tesouro de uma época, em um único registro que é a prova que aquele pedacinho especial da cidade existiu.

 

Referências do texto:

Passe pela experiência de andar descalço pela Exposição AI WEIWEI – INTERLACING no MIS – Museu da Imagem e do Som, Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo – SP Telefone:(11)2117-4777. Exposição de 07 fev a 14 abr 2013, terças a sextas, das 12 às 21h; sábados, domingos e feriados, das 11 às 20h. Entrada: R$6|R$3 (meia) Terças-feiras: Entrada gratuita.

As fotos da Jundiaí antiga pertencem à diferentes acervos, mas todas elas podem ser vistas no álbum Vila Arens e Região do Facebook do Sebo Jundiaí Maurício Ferreira.

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