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Por amor, sem rancor

Publicada em 09/02/2012 às 16:23 | por Polli José Renato

Escrevo em nome da poesia e da arte. Menos pelos dotes pessoais, mais pelos compromissos de cidadão. Não me interessam a filosofia nem a política institucional. Os partidos, da direita à esquerda, com raras exceções, se renderam à tirania do capital, preferindo hidrelétricas e petróleo, especulação imobiliária e acumulação financeira, em vez de decência e boniteza ou a defesa das pessoas e suas condições culturais de vida, como sempre alertou meu mestre, Paulo Freire.

Quero falar como integrante do cosmo. Não me interessa defender a sustentabilidade, um placebo do capitalismo, discurso vazio utilizado para invadir territórios sagrados. Quero falar como irmão dos bichos e das plantas. O que me interessa é o que mais interessa. Tenho certeza, também à grande maioria. O que não é de ninguém não pode ser de alguém: a vida em sua diversidade. O barulho ensurdece, a agitação afoba, a invasão do espaço amedronta. Estradas, correria, automóveis, aviões, assustam os pobres e indefesos companheiros de jornada que estão perto de nós. Nós fazemos isso.

Quero falar pelos situados naquela que foi motivo de canções. Falo junto com outros amigos e entidades. Os sapos, as pererecas e as rãs. As serpentes, lagartos e cobras. Os veados, jaguatiricas, suçuaranas, ouriços, tatus, macacos, sagüis, morcegos, capivaras, ratões do banhado, gambás. As aranhas, formigas, os louva-deus, as taturanas. O João de barro, as jurutis, os beija-flores, os bem-te-vis, os pica-paus, a mãe da lua, o andorinhão, os tucanos, as arapongas, pavós, saíras, surucuás. A Maria preta de bico azulado, o sanhaço, o gavião, a jacutinga e o urubu rei. Essas espécies não acumulam nos bancos. Vão para terra sem deixar descendentes ávidos pelo controle “natural”, darwinista, dos bens que o universo nos proporcionou. Apodrecerão como todos nós, mas sua etereidade será melhor absorvida pelo transcendente, porque livres de pecados mortais, de maldades e usurpações. Falo por aquele que me gerou e viveu boa parte da vida na serra.

Sinto muito por não falar em nome dos que supõem poder balancear avanço econômico, urbanismo e preservação ambiental. Engano pensar que podemos adiar esse processo de descalabro com uma “ética mínima”, já que não pode haver ética sem política (a ética máxima). Temos todos que nos situar longe dos interesses menores da filiação partidária, para, livres do purismo, do fundamentalismo, do sectarismo, da falta de historicidade, defender uma causa que é patente: a fauna e a flora de um trecho de mata atlântica que nos circunda. Por nós mesmos, por todas essas espécimes citadas acima, pela nossa boniteza, pela nossa decência. Não por razões legais, econômicas, ideológicas. Não movidos por ódios. Por uma simples razão: estamos ameaçados em nosso potencial de bondade.

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3 respostas para “Por amor, sem rancor”

  1. Avatar Durval Orlato disse:

    Vamos preservar o que ainda nos resta. Como você mesmo iniciou, um texto poético e artístico… e consistente também. Como os fatores, que contribuem para que fauna e flora que ainda nos resta sejam plenamente preservados, são complexos (pois tantas são as formas que as agridem), no momento estou a combater um dos focos: o permissionário legal para que essa agressão ocorra pelo meio político, o estimulador do capitalismo predatório travestido de sustentabilidade fictícia. Este permissionário e seu grupo, estão aí rondando a nossa Serra do Japi, como abutres, há 20 anos. E deste mal, só no campo político teremos o remédio. Vamos nessa? Abs

  2. Temos todos que nos situar longe dos interesses menores da filiação partidária, para, livres do purismo, do fundamentalismo, do sectarismo, da falta de historicidade, defender uma causa que é patente: a fauna e a flora de um trecho de mata atlântica que nos circunda.

  3. Avatar Patricia Anette disse:

    Eu me arrepiei com seu texto tanto quanto quando li:

    ‎”Agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer essa verdade.” Manoel de Barros

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