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Por que educar com ênfase em gênero?

Publicada em 30/06/2015 às 12:15 | por Colunista Convidado

Nosso mundo é marcado por ações contra a humanidade. Estimativas apontam que mais de 11 milhões de pessoas, (judeus, homossexuais, ciganos, eslovenos etc.), morreram no extermínio nazista. Ou ainda, os incontáveis números de negros que foram escravizados e torturados durante os mais de três séculos desta prática atroz.

Hoje não estamos longe disso, a cada uma hora e meia, uma mulher morre vítima de violência masculina no Brasil, e, ainda em nosso país, a cada 12 segundos uma mulher sofre violência física ou sexual. Para completar cerca de 70% das mulheres sofrem, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo de sua vida.

Isso acontece porque vivermos numa sociedade que ainda hierarquiza homens e mulheres, colocando as mulheres em seus “lugares” de nascença, afinal por que ela quis trabalhar fora, por que escolheu essa roupa, ela não sabe que é MULHER?

Hoje, a cada hora, um homossexual sofre violência em nosso país, são 24 por dia, 8640 pessoas por ano violentadas e massacradas unicamente porque algumas pessoas não conseguem respeitar as diferenças, e impõe-se violentamente, massacrando aquilo que interpretam como “aberrações”.

Ainda que vivamos na sociedade da informação descrita por autores como Castells, vemos que tudo o que as pessoas menos tem é informação, alguns por falta de acesso mesmo, já outros por pura preguiça cognitiva ou pior, total fechamento ao pensamento crítico por filosofias e ideologias enraizadas socialmente. Assim, fica evidente que para a diminuição da violência contra muitos grupos o único caminho é a educação formal, ou seja, a presença destes estudos na escola, afinal é impossível agir dentro das famílias, onde estes valores que promovem a violência continuam passando de geração a geração.

O que precisamos entender é que essa violência não acontece por pessoas desiquilibradas, doentes ou loucas, ao contrário, ela se perpetua a partir daquele comportamento “inofensivo”, que ironiza e diminui o outro. É aquele comentário “nossa filho, isso é coisa de menininha”, aquela piada inferiorizando o homoafetivo, aquela mania idiota de engrandecer atitudes de “macho”. Isso são só alguns exemplos de práticas culturais “inofensivas” que constroem uma cultura baseada na diferença e no ódio.

Paulo Freire afirmava “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder aos outros (…)que alguém se torne machista, racista, classista, sei lá o quê, mas se assuma como transgressor da natureza humana. Não me venha com justificativas genéticas, sociológicas ou históricas ou filosóficas para explicar a superioridade da branquitude sobre a negritude, dos homens sobre as mulheres, dos patrões sobre os empregados. Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar. A boniteza de ser gente se acha, entre outras coisas, nessa possibilidade e nesse dever de brigar. Saber que devo respeito à autonomia e à identidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber.” ( Pedagogia da autonomia, 1996)

Os estudos de gênero mostram que nossa biologia não dita nosso comportamento, que podemos nascer meninas que amar dirigir um caminhão, temos todas as habilidades parar sermos mecânicas, engenheiras, astronauta, o que quisermos. Que podemos nascer menino e cuidar da casa, dos filhos, lavar roupa, ser manicure, cabelereiro, esteticista. Porque nossa biologia não nos limita nem nos define, como seres únicos e individuais podemos ser qualquer coisa. Entender isso desde criança ajuda na formação de adultos tolerantes, compreensivos e que sabem respeitar as individualidades sem querer impor sua própria crença ou visão de mundo.

Nosso Plano Nacional de Educação, em acordo com as ações e diretrizes internacionais, além de seguir recomendações de estudiosos, insere as temáticas diversidade sexual e gênero, o Plano Municipal tem a opção de integrar a luta contra a descriminação ou lavar as mãos e deixar que as práticas culturais continuem matando milhares, e, em vista da pressão política exercida por extremistas, fundamentalistas e ignorantes religiosos o plano é barrado, afinal é melhor garantir votos do que salvar vidas.
O que entristece é saber que o que movimenta essa chacina não é a ação dos maus, mas o silêncio dos bons. As mesmas pessoas que deixaram todas as atrocidades históricas acontecerem há tantos anos, silenciam e deixam que mulheres e minorias sejam massacradas dia após dia.

Você que lutou contra a educação para o gênero em sua cidade é responsável pelas mortes relacionadas à descriminação que acontecerão daqui pra frente, você que se calou também é. E sem exageros ou sensacionalismo eu afirmo, hoje há sangue em suas mãos, e, nas palavras de Freire assuma-se como transgressor da natureza humana.

Daniele Savietto

Colunista Convidado

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Uma resposta para “Por que educar com ênfase em gênero?”

  1. Avatar Emanuel disse:

    Daniele Savietto, pelo seu texto é possível concluir que somente as minorias (mulheres, homossexuais, negros) merecem ter suas vidas preservadas, com leis que tratem de protegê-los? Em um país com índices sobre violência alarmantes como no Brasil, não seria o caso de lutarmos para que TODOS nós sejamos protegidos desta guerra civil velada, independente de fazermos parte de uma “minoria” que as esquerdas adoram e juram defender? A violência no
    Brasil atinge a todos, não só mulheres, homossexuais e negros. Não enxerga
    esta realidade quem não quer.

    Você distorce esta realidade para tratar da ideologia de gênero, que felizmente, foi excluida do Plano Municipal de Educação. Isso, evidentemente, não significa ser intolerante com as diferenças, significa, antes, que cabe aos país e à família educar seus filhos com relação a moral sexual e não a escola e o Estado.

    O último parágrafo de seu texto é ridículo e sensacionalista SIM. Na falta de
    argumentos, melhor não escrever nada.

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