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Por uma cidade mais gentil

Publicada em 28/01/2013 às 09:17 | por Lígia Luciene Rodrigues

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Adoro viver na cidade, em sua zona urbana, próximo ao centro. Vivo na Vila Arens desde 1986 e da janela de casa acompanhei o crescimento da cidade e as mudanças em sua paisagem. Minha família mudou da capital do estado para Jundiaí quando eu tinha 5 anos, numa época em que a cidade era menor e mais gentil. No tempo em que as pessoas saudavam os desconhecidos na rua com um simpático “ó”. Ainda acho que nós, jundiaienses (sim, considero-me jundiaiense), somos pessoas simpáticas e quando caminho pelo meu bairro mantenho o costume de cumprimentar os antigos moradores e comerciantes locais. Mas percebo que, com o passar dos anos, a cidade em seus aspectos físicos e urbanos foi deixando de ser gentil, foi crescendo e enrijecendo-se, tornando-se um lugar que carrega os problemas de uma grande metrópole.

O crescimento e a mudança é algo natural na vida de uma cidade, porém acredito que em alguns aspectos essas mudanças ocorreram nos espaços públicos e pouco se pensou nas pessoas. É como se as cidades fossem feitas e pensadas para os prédios, as ruas, os carros, e os indivíduos estão lá apenas para fazer uso disso tudo e voltar para o seu lugar. Com isso as pessoas não se sentem donas da cidade e os espaços públicos remanescentes ficam vazios e abandonados. Pouco se convive e se compartilha nesses lugares.

A boa notícia é que existe um movimento atual para o ressurgimento, a recuperação e a reapropriação dos espaços públicos. É um movimento internacional, encabeçado pelo arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, que nos anos 1960 realizou na capital de seu país uma grande transformação nos espaços públicos e sua receita, nas pesquisas que realiza desde então, é pensar, em primeiro lugar, nas pessoas.

O arquiteto em conjunto com seus colegas de trabalho do escritório Gehl Architects estabelecem no livro New City Life, 12 critérios para determinar o que é um bom espaço público, reproduzidos a seguir:

  1. Proteção contra o tráfego: segurança para pedestres, sem motivos para temer o tráfego;
  2. Segurança nos espaços públicos: circulação de pessoas, espaços que tenham vida de dia e de noite, boa iluminação;
  3. Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis: abrigo de vento, chuva e sol, áreas verdes que amenizem altas temperaturas, poluição e barulho;
  4. Espaços para caminhar: fachadas interessantes, ausência de obstáculos, superfícies regulares, acessibilidade a todos;
  5. Espaço de permanência: locais públicos agradáveis para permanecer, fachadas e paisagens interessantes para contemplar;
  6. Ter onde sentar: mobiliário público direcionado às atrações, passagem de pessoas, vista, etc, locais para descansar;
  7. Possibilidade de observar: vistas e paisagens que não estejam escondidas;
  8. Oportunidade de conversar: baixos níveis de ruídos, mobiliário urbano que convide a interação entre as pessoas;
  9. Locais para se exercitar: equipamentos públicos para praticar esportes, entretenimento e atividades na rua – de dia, de noite, no verão e no inverno
  10. Escala humana: prédios e espaços projetados para a escala humana – a cidade vista da perspectiva dos olhos das pessoas;
  11. Possibilidade de aproveitar o clima: locais para aproveitar cada estação, de acordo com o clima e a topografia da cidade;
  12. Boa experiência sensorial: árvores, plantas e cursos d’água acessíveis, mobiliário feito com bons materiais, design e acabamentos de qualidade.

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É surpreendente perceber que a ideia é simples. Todos esses 12 critérios são possíveis de acontecer, basta vontade política e um bom planejamento. Por exemplo, estamos em um momento ótimo para pensar se as praças cercadas são realmente necessárias. E eu poderia indicar aqui inúmeros lugares ao meu redor, no meu bairro ou próximo, com incrível potencial para o convívio urbano, a nossa cidade é cheia deles. Força e vontade para a ocupação dos espaços públicos existe em seus cidadãos, é só reparar nos pequenos movimentos que já existem e outros que estão surgindo (Praça viva, Tô na praça, Bicicletada etc).

Com o espírito político renovado que paira sobre a cidade, quem sabe ela volte a ser aquela da minha primeira lembrança da infância, uma cidade gentil feita para as pessoas.

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4 respostas para “Por uma cidade mais gentil”

  1. Lígia, muito legal recuperar esta referência! 😉
    Agreguei a imagem dos 12 critérios!

    Topa pensar alguns artigos que analisem a Vila Arens a partir de cada um deles?

  2. Avatar Daniel Motta disse:

    Creio que a questão não é de “mais gentil”, mas de viva. No formato atual, Jundiai se torna fantasma a partir das 19hs!!

    Creio que as praças podem se tornar em um símbolo de transformação. Mas para isso o planejamento deve ser, em primeiro plano, para as pessoas…

  3. Avatar fabio disse:

    Hoje em dia, se arrumássemos pelo menos um lugar agradável ao ar livre (já que não há nenhum ainda) infelizmente seria infestado por jovens pixadores, bebados, fumados, cheirados, filhos de papai com o carro do papai bebendo, com o som alto, e depois cantando pneu e deixando todo o seu lixo jogado na sarjeta.
    Precisamos primeiro de educação, uma cidade gentil não será gentil primeiro pelo ambiente, mas sim pelas atitudes dos frequentadores.
    Aposto minhas fichas (all in) nessa ideia de gentilizar as praças e ambientes da nossa cidade, no entanto, não boto fé nenhuma na manutenção do local pelos visitadores. Deveríamos antes de planejar um espaço, planejar uma campanha de conscientização pública de higiene na cidade.
    A praça (praça do passamal) que foi cercada, justamente por esse motivo, a galera ia lá ficava bebada, fazia barulho, usava drogas e ainda largava tudo sujo. Com que moral pedimos por uma praça mais humana?
    O lago (do novo mundo), era um ambiente que tinha tudo isso aí, tinha tudo para ser o pico “fim de role” para todos os jovens, no entanto, alguns pixaram, alguns roubaram, alguns depredaram, abusaram, resultado: rua fechada.

  4. […] Anos atrás a mesma citação de Benévolo me veio à mente novamente, quando vi no acervo fotográfico do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí – Solar do Barão, umas fotos da Vila Arens dos anos 1940. Não acreditei que no bairro existia, por exemplo, um pergolado carregado com uma planta trepadeira proporcionando uma bela sombra para os bancos que ficavam embaixo dele, criando uma excelente área de permanência, local que possivelmente contemplava uns 5 dos 12 critérios para determinar um bom espaço público do Jan Gehl (escrevi sobre eles mês passado, aqui). […]

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