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Qual será a pauta de Jundiaí?

Publicada em 22/06/2013 às 13:02 | por Henrique Parra Parra Filho

Na manifestação de ontem aqui em Jundiaí, encontrei três atores bastante distintos. O primeiro, cidadão mais engajado e politizado, que acompanha e participa mais ativamente de coletivos, movimentos e entidades (dentre eles partidos), já tendo protestado e estando vinculado a pautas e bandeiras. O segundo, de cidadãos que estão despertando agora, descobrindo a importância e o poder de se expressarem publicamente – seja por uma motivação que nasceu da reflexão, seja pelo glamour e senso de ‘fazer história’. O terceiro, de pessoas que também começam a se expressar publicamente, mas o fazem na lógica da violência.

Vi muitas pessoas que participaram pela primeira vez, e isso é lindo e único. Uma quantidade enorme de adolescentes e jovens, quase todos em grupos e turmas, como quem está na escola (e a rua não é isso?). Estes jovens e cidadãos despertos, mesmo que acabem se inflamando pelas ações daquele grupo menor, cujas frases e atitudes são mais bruscas e duras, interagem mais profundamente com os cidadãos mais conscientes; seus pais, irmãos e professores. Deve estar aí o impulso para fortalecer uma cultura cidadã em nosso país.

Também é verdade que faltaram cartazes que falassem de Jundiaí ou mesmo cantos que aprofundassem questões públicas. Quase todas eram ecoando os cartazes e cantos que ouvimos na televisão e vemos na internet.  Faltaram mensagens sobre democracia direta, democracia mais participativa, ninguém cantava sobre isso e as mensagens eram para ‘eles’, para que ‘eles’ façam melhor.

Está aí uma das principais características destas manifestações, que são coletivas e em redes, colocando na mesma rua os movimentos sociais com pautas profundas – mas distintas e muitas vezes antagônicas – e cidadãos recém acordados, ainda sem pautas construídas mas movidos por uma insatisfação do inconsciente coletivo. Daí, vem uma dificuldade enorme de conseguir decifrar o que esta multidão está falando objetivamente. Há uma ansiedade de conseguir traduzir uma “pauta”. Nestes dois dias, o que mais tive de responder é se não iríamos ajudar a construir esta pauta, a dar um caminho.

É impossível. Este é um movimento de multidão, de rede e de indignação. Há poucos – e muitas vezes frágeis – pontos em comum, uma espécie de sentimento geral de querer melhorias, a expectativa por uma postura de comprometimento e um esforço mais claro de melhoria do que é público. Para mim, é simbólico que tais multidões, em inúmeras cidades, caminharam horas e horas, cobrindo quilômetros de cidade, chegando até avenidas, rodovias e voltando. Tais multidões, compostas por micropautas, múltiplas motivações e diferentes acúmulos políticos caminharam sem definir um ponto de chegada.

O foco, então, não deve ser em descobrir o que uma multidão distinta, com inúmeras pautas e até mesmo a falta delas traz como formulação, como propostas do que ser feito. Deve se buscar o que estas pessoas querem ouvir, querem receber e encontrar. Está claro que há uma expectativa por uma classe política mais comprometida e próxima. Expectativa por decisões mais sensíveis e justas. Expectativa por serviços públicos melhores. Depois de 21 anos uma multidão novamente escolhe a via política, a rua, para manifestar um sentimento. Não deve ser responsabilidade de jovens e adultos que se expressam politicamente pela primeira vez, a formulação de pautas.

A maior responsabilidade em construir pautas neste momento é do governo, dos governantes. Afinal, é para eles que as pessoas estão falando, cobrando e protestando. São os governantes que conhecem a máquina por dentro, as regras e estruturas. Que conhecem os vícios de seus próprios partidos e governos, do Congresso e do sistema político. Têm o acúmulo e a experiência para construir propostas e não seria justamente a expectativa de uma resposta o que esta multidão tem em comum? O desejo de ter um Brasil de melhor governo e de melhores governantes?

Em Jundiaí, como responder a uma multidão que também sente que o governo precisa tomar decisões mais acertadas, evitar a corrupção e os desvios e melhorar os serviços públicos? Pela lei, conquistada a unhas e dentes pela sociedade organizada, nossos Prefeitos têm 6 meses para publicar suas metas de governo. Falta 1 semana para este prazo se esgotar. É a oportunidade deste governo publicar suas metas, seus compromissos e toda a cidade brigar e disputar cada uma destas metas, garantir que todas elas sejam cumpridas e que, nas próximas eleições, todos sintam que as promessas eleitorais têm consequências.

Como dar maior espaço a novos atores que descobriram a participação política, para que então esta cidadania floresça? Instituindo um Conselho da Cidade, que convoque os movimentos sociais, cidadãos com grande atuação pública e professores. Estará neste conselho a força para cobrar e debater políticas que precisam obrigatoriamente ser mais ousadas. Está em especial nos últimos, a chance de manter uma interação e debate com os milhares de jovens que saíram às ruas pela primeira vez.

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2 respostas para “Qual será a pauta de Jundiaí?”

  1. Avatar Lígia Luciene Rodrigues disse:

    ótimo texto, Henrique! acho que a insatisfação de todo mundo é um ponto chave dessas manifestações! se tivesse uma bandeira única na frente dela não teria mobilizado tantas pessoas, principalmente as que saíram as ruas pela primeira vez, fizeram isso porque finalmente sentiram que fazem parte. E como é lindo ver a rua cheia de pessoas e sem carros…
    …sabe, eu sempre acabo enxergando as coisas dentro da minha zona de conforto e comparo esses acontecimentos com o fazer artístico… A arte não funciona como uma equação com um resultado exato. No processo de criação artística, muitas vezes você produz algo na experimentação, sem saber muito no que vai dar. Tem mais a ver com investigar e experimentar do que com a certeza de algo, você não sabe onde vai parar, você só segue o seu sentido, a sua vontade de ir e vai.
    Senti isso nas ruas nessa quinta-feira, as pessoas tinham a vontade de estar lá e estavam, e esse é o direito genuíno de todos, ocupar os espaços públicos, as ruas. Como aquela multidão tinha que ter clareza e uma pauta? Seria maravilhoso se tivesse, mas…
    Como você disse, nesse momento esse é papel dos governantes! Eles sabem porque estamos insatisfeitos, estão cansados de saber, caso contrário é só prestar um pouquinho de atenção no que está acontecendo, e eles tem que dar uma resposta à altura dessa insatisfação e com urgência.

  2. Avatar Marilia Fornazieri Scarabello disse:

    Gosto da forma como você coloca o que há, efetivamente, a ser feito e realizado em Jundiaí nestes próximos dias e que, como cidadãos, devemos ficar atentos.

    E concordo muito com a Ligia. Muito mesmo. Pensei bastante sobre esta manifestação. Mas depois de um certo momento, parei de pensar na manifestação em si e comecei a refletir sobre o por quê das pessoas quererem tanto racionalizar, de forma muitas vezes erudita, o que está acontecendo. O que está acontecendo é um processo que, mesmo munidos de todos os livros sobre politica e história, não conseguiremos compreendê-lo em suas inúmeras derivações, simplesmente porque estamos dentro dele, no olho do furacão. Taí a razão de ser tão dificil escrever sobre isso- com responsabilidade. E taí a razão pela qual tantos e tantos textos e declarações equivocadas foram postados e divulgadas.
    Acho também que todos nós sabemos o motivo principal de tanta gente nas ruas, mesmo havendo tantas diferenças entre elas. E o governo, tal como a Ligia coloca, sabe muito bem, muito melhor. Todos sabemos. Basta acompanhar qualquer setor público para saber. E o que piora a situação potencialmente, são os discursos destas pessoas que estão no poder, que tentam de alguma forma refutar ou diminuir o cerne básico da questão que é: nossos governos não vêm fazendo um bom trabalho há muitos e muitos anos.

    Beijo Henrique!

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