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Quem pensa no professor?

Publicada em 31/05/2017 às 14:42 | por Colunista Convidado

O senso comum tem uma adoração gigantesca em louvar que uma educação de qualidade é a base para uma sociedade mais justa e igualitária. Quando ouvimos bradar aos quatro cantos que a educação pública é de má qualidade e que precisamos de melhorias, ninguém pensa no professor. Pensamos nos métodos, nos conteúdos, nos instrumentos, na formação, nos alunos, nas famílas, na sociedade, num mundo melhor, mas nunca no professor.

O Estado, fornecedor da educação pública, não pensa no professor. Pensa no material didático, em livros e apostilas, em metas de governo, em indicadores sociais e educacionais, em maneiras de desenvolver o trabalho educacional de maneira mais eficiente, no PISA, no ENEM, no ENADE, em produtificar a educação, em privatizar e se livrar desse fardo que é a educação, mas nunca no professor.

A escola, ambiente educacional e de trabalho do professor, não pensa no professor. Pensa na estrutura escolar, na merenda, nos conflitos entre alunos, entre alunos e professores, entre professores, pensa nas reuniões escolares, no cumprimento das metas estabelecidas para a escola, nas HTPCs, nos horários de aulas, nas faltas e na evasão escolar, mas nunca no professor.

Os alunos, foco de trabalho do docente, não pensam no professor. Pensam no seu lazer, em como não querem estar ali, em como tudo aquilo que está na lousa é inutil e insignificante, nas angustias da vida, e na vontade de sumir com o professor para não fazer outra tarefa, na vida que voltarão a ter a partir do toque do sinal, mas nunca no professor.

A universidade e seus docentes, pesquisadores da educação e do ensino,não pensam no professor. Pensam nos artigos que precisam publicar, em quais revistas publicá-los, pensam na próxima problemática que pode gerar um trabalho e colocá-lo na escola, em como entrevistar os professores e como classificar, quantificar e analisar esses dados, novos métodos, novos instrumentos, novas formas e novas teorias, mas nunca no professor.

O próprio professor, o principal ator da educação, não pensa em si mesmo. Deprimido, cansado, desvalorizado, esquecido. Refletindo no que motivou ele a começar essa profissão, por quê está tanto tempo batalhando em uma guerra que parece perdida. Sem dinheiro e sem motivação. Esquece que por trás daquele professor existe sonhos, desejos, anseios, criatividade e vida que ultrapassam os limites da sala de aula e de sua profissão. Mas nem o professor pensa no professor.

Esquecemos que, apesar de todos os problemas, a transformação e a melhoria do plano educacional passam sempre pelo professor. Lembrando Paulo Freire, a educação não transforma o mundo, ela transforma as pessoas, e pessoas transformam o mundo. O que melhor para mudar as pessoas do que outras pessoas?

Matheus Naville Gutierrez é licenciado e professor de Ciências e Biologia, formado pela UNESP – Campus de Botucatu. Atualmente faz parte do programa de pós-graduação multiunidades em ensino de Ciências e Matemática pela UNICAMP. Participou de movimentos estudantis e educacionais, e hoje atua na ONG Cursinho Professor Chico Poço.

Colunista Convidado

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