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Traquinagens e Palhaçadas

Publicada em 06/05/2011 às 20:40 | por Colunista Convidado

Por Paulo Dutra
Jundiaí, outono de 2011.

Um jornal local publica carta de leitor manifestando-se sobre os últimos acontecimentos na Câmara Municipal.

Ele comenta o aumento dos vereadores e um loteamento na Serra da Ermida.

Ambos adiados.

Segundo a carta, é uma espécie de traquinagem dos vereadores: levam, quietinhos, o projeto ao plenário. Se passar, passou. Não tinha ninguém olhando, sorte deles.

Mas desta vez foi diferente.

Tinha uma molecada e meia dúzia de aposentados atentos.

E tinha o facebook. E o twitter. E essa indelicadeza de flashmob. E outro jornal, engraçadinho.

Aí, virou palhaçada. E, claro, o circo pegou fogo.

E tinha o Código Florestal. E Bin Laden.

E isso tudo faz uma fumaça danada.

Então, o legislativo colocou as barbas de molho.

O prefeito entra em cena.

Até agora, ele, como Obama, não sabe avaliar as conseqüências.

Imagino-o com o presidente da Câmara e aliados, na sala do alto-comando, acompanhando a movimentação on-line e tendo que optar.

Onde pegou o tiro?

Obama não mostra a foto.

Mas não faltam fotos mostrando a palhaçada na Câmara.

Gente de nariz comprido, gente de nariz vermelho, coisas cheirando mal.

Uma onda de terrorismo ao contrário, com ataques bem humorados.

E o Código?

Aqui já tivemos fazendas produtivas, como a da Ermida.

Ouro, cana e café.

Ciclos que arrastavam gentes e depois se desmanchavam.

Assim Jundiaí foi se formando, quatrocentos anos, mas meio sem história.

Não, a cidade não começou com a imigração italiana, nem tampouco com a mata dos cocais.

Aqui, antes de tudo, índios e a mata atlântica.

Aqui, hoje, a necessidade de EIV, de Plano Diretor, de respeito à APA e ao Código Florestal. E de um tempo de reflexão.

Talvez uns cento e oitenta dias, pra rever os rumos da cidade.

Mas o tempo é implacável.

Em poucos dias, a Câmara protagonizou pelo menos duas grandes traquinagens: aprovou projeto pré-EIV numa semana e acatou veto do prefeito na seguinte; aprovou novo salário e pediu veto ao prefeito.

Gente de nariz de pau, gente de nariz vermelho. Quem são os palhaços?

Esse novo ciclo de democracia participativa pode ser passageiro.

Tivemos um movimento jovem ambientalista que tombou o Japi e depois agonizou.

Em momentos assim, queremos chamar todo mundo. Mas pode ser um erro.

Não cabia todo mundo na ONG dos anos oitenta.

Não cabe agora num movimento único.

Não cabe na Internet, nas redes, em cybercafés democráticos.

É preciso espalhar esse sentimento e torcer para que ele ganhe formas e contornos em cada rua, cada bairro. Movimento próprio, identidade.

Jundiaí não é só dos imigrantes, mas de todos os negros, manos e minas, caipiras, migrantes, vizinhos aglomerados, numa cidade que não precisa de donos.

Quatrocentos mil habitantes, quatro mil conectados, quatrocentos apoios.
Quatrocentos anos de uma história contida e mal contada.
A internet empoderou alguns, é verdade.

Mas a vida acontece nas ruas.

Como numa terça de manhã, no centro velho. Ou nas capitais do deserto.

Obama faz justiça, mas não mostra a foto.

A gente mostra a foto pra poder entrar.

A Câmara vota, a TV registra.

O prefeito observa, vacila, veta.
A gente mostra a cara.
O vereador chora.
Bin Laden cai sozinho. O Código balança.

Gente cara de pau, gente cara pintada.

Quem está rindo a toa?

Paulo Roberto Franchi Dutra

Colunista Convidado

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