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Um bem histórico e cultural

Publicada em 31/12/2008 às 10:13 | por Voto Consciente Jundiai

ANÁLISE

2/7/2008

O vale que se situa a oeste do outeiro onde se implantou a aldeia indígena de Jundiahy nasce ao sul, na posição do final do “campo”, como era denominado o Anhangabaú; sapezal eivado de cupins e, desenrolando-se ao longo da sesmaria concedida ao Mosteiro de São Bento, na direção do Retiro, bordejando o rio do Mato e a estrada que demandava a Itu e Araritaguaba (Porto Feliz).

O mosteiro era rico em terras, pois recebeu da Câmara uma sorte de terras além do ribeirão Guapeva (Coapeba) e ainda 200 braças em quadra (8 alqueires) no Japy, doados por Paschoal de Louvera. Adquiriu por 10$000, no sertão, 100 braças de testada por 1/2 “légua de Sesmaria” (3.300 m segundo Caldas Aulete) o equivalente a 30 alqueires e ainda compraram de Úrsula Nogueira 450 braças em quadra, equivalente a 40 alqueires no Rio Abaixo, por 23$500.

As Cartas de Datta fazem constantes referências ao Rocio, isto é, os limites urbanos onde se situavam as “Rossas” tanto na direção do Guapeva como na direção do Rio Jundiaí, onde deságua o Córrego do Rio do Mato (hoje na altura do início da Av. 9 de Julho). Duas nascentes foram muito importantes para a Vila, quais sejam o córrego do Rio do Mato e o da Bela Vista. Este descia do alto do bairro até o largo do Rossio (hoje Sta. Cruz), local do chafariz e um bebedouro de animais, de onde foi desviado para a bacia do ribeirão Guapeva, para servir às roças das Dattas de Antonio Álvarez Bezerra e seus filhos.

Em 1960, achei a tubulação de tomada d´água em bambu açú, (com reparos em manilhas de barro), em uma ocasião que orientei o pessoal da Diretoria de Obras (Setor de Distribuição, chefiado pelo saudoso Manoel Lopes), no reparo da adutora de concreto de 5″ de diâmetro que, depois de servir ao reservatório subterrâneo do Anhangabaú (atual ETA), passava pela Bela Vista, em sentido perpendicular à tomada d´água, vindo do córrego do Moisés, para alimentar o Vianelo e a Vila Arens.

Há uma planta antiga na DAP da Secretaria de Obras que mostra a passagem dessa tomada d´água na posição do galpão do antigo depósito de bebidas da A adutora alimentava também um bebedouro e chafariz, na esquina da Av. Dr. Olavo Guimarães com a R. Visconde do Rio Branco, existente desde antes de 1890.

A água da Serra do Japy, colhida no alto do córrego da Ermida, a partir de 1904, pela adutora de 16″, de aço Krupp, tanto quanto aquela primeira coletada no córrego do Moisés, eram pobres em iodo; motivo pelo qual, por muito tempo, Jundiahy levou o epíteto de “terra de papudos” devido ao bócio endêmico, deficiência hídrica que causava a hipertrofia da glândula tireóide (papo).

Em frente ao bebedouro, na esquina do Largo com a atual R. Baronesa do Japy, ficava a casa da “Nhá Polí”, pousada de tropeiros, servindo o córrego ao curtume de couro que ali esteve por bastante tempo e a selaria, muito usada pelos bandeirantes e entradistas, bem como, pelos animais de tiro e montaria, até a evolução do automóvel. Mais tarde ali foi instalado um chafariz.

O curso original do córrego Bela Vista passava por detrás da atual Igreja de Santa Cruz e descia pela encosta da ruela que desce do Largo para a Av. 9 de Julho, servindo adiante a um moinho de fubá que pertenceu à casa de Estácio Ferreira, doador do terreno do Mosteiro de São Bento, a qual existiu em ruínas até 1959, na esquina da R. Petronilha Antunes, quando a demoli para a abertura do prolongamento desta via, cuja casa foi retratada por Diógenes Faria Paes, em uma pintura que hoje pertence ao acervo do Clube Jundiaiense.

O córrego do Rio do Mato possuiu uma lagoa na altura da R. João Camargo Pupo até pouco antes de 1974, denominada Lagoa da Vila Iracema, a qual existiu naquele local desde os tempos do bandeirismo, aonde o gado que vinha do interior era saciado, para o abate local, tendo o “campo” como sua pastagem. Na altura do cruzamento do córrego com a Rua Eduardo Tomanik, havia os tanques das lavadeiras sob uma carreira de paineiras que subia o morro, no rumo dessa rua, até a Chácara dos Padres, presumível origem do nome do Bairro: Chácara Urbana.

Hoje, retificado e com seu antigo lagamar restrito ao espaço entre as avenidas marginais; o pequeno fluvio recupera aos poucos sua biodiversidade, apresentando vegetais rasteiros próprios; criando defesa ciliar a proteger suas margens e permitindo o desenvolvimento de vida animal, como a de pequenos peixes e batráquios; por sua vez alimentando pássaros como garças e socós e, os passarinhos como sabiás, bem-te-vis, tico-ticos, pica-paus e outros, regulando a proliferação de insetos daninhos; dando àquela via pública um tom romântico de natureza viva.

Se coberto por aduelas de concreto roubando-lhe a luz, a aeração, além de mais de 800 árvores nativas de seu ciliar (COM QUE LICENÇA DA DPRN ??), essencialmente necessárias à sua vida vegetal e animal, criar-se-ia mais um duto inacessível à manutenção, propiciando a proliferação de ratos, baratas e escorpiões, a infectar todo o entorno daquele bem natural e historicamente importante para nossa urbe, uma vez que foi ali o princípio da atividade rural urbana de nossos ancestrais: A PRIMEIRA “ROSSA” DE JUNDIAHY, objeto das CARTAS DE DATTAS de número 06, concedida a Antonio Álvares Bezerra e de números de 53 a 56 concedidas a seus filhos Estevão e João e suas noras Maria dos Anjos e Agostinha Rodrigues, em 1657.

“Pensar a reforma da Nove de Julho a partir da preservação e revitalização do córrego do Mato não é voltar ao passado. É antes uma nova postura, diante dos desafios de um novo tempo. Sem ela, nós, cidadãos do ´município verde´, estaremos como o velho Córrego do Mato: a meio caminho de lugar nenhum!”

Paulo R. F. Dutra – Coordenador do Fórum Permanente Caxambu, é Comunicador Social e Ambientalista. Roberto Franco Bueno é Arquiteto e Membro da Comunidade do COMPAC

fonte: JJ

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