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Violência doméstica – Paz em casa, paz no mundo

Publicada em 03/08/2011 às 23:08 | por Simone Pligher

Um rato, olhando pelo buraco na parede, viu o fazendeiro e a mulher abrindo um pacote. Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado.

Correu até o pátio e advertiu aos outros animais: – Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!O rato foi até o porco e lhe disse:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!

– Desculpe-me, senhor Rato, disse o porco. Mas, não há nada que eu possa fazer a não ser rezar. Fique tranquilo. O senhor será lembrado nas minhas preces.

A galinha, disse:

– Desculpe-me, senhor Rato. Eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

O rato dirigiu-se, então, à vaca. Ela, num muxoxo, disse: Uma ratoeira? Isso não me põe em perigo… Então, o rato, cabisbaixo, voltou para a casa para encarar a ratoeira. E naquela noite, ouviu-se um barulho!Meu Deus! Seria a ratoeira pegando sua vítima?

A mulher do fazendeiro correu para ver de onde vinha o barulho. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pegado a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher… O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.

Para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal. Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la. Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.

A mulher recebia visitas todos os dias. Muita gente mesmo!Para alimentar todo aquele povo, o fazendeiro, então, sacrificou a vaca para servir churrasco aos amigos!

“Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. O problema de um é problema de todos.”

Esta pequena fábula diz muito sobre a visão sistêmica, ou seja, como os fatos e relações estão mais relacionados do que imaginamos.  Diariamente a mídia noticia situações envolvendo violência dentro da família, os números, alarmantes,  falam por si:

“A violência doméstica é a maior causa de ferimentos femininos em todo o mundo e a principal causa de morte de mulheres entre 14 e 44 anos”. (Rel. Dir. Hum. Da Mulher da Human Rights Watch/96).

“Um em cada cinco dias em que as mulheres faltam ao trabalho é motivado pela violência doméstica”. (Banco Mundial/98).

“O risco de uma mulher ser agredida em sua própria casa pelo pai de seus filhos, ex-marido ou atual companheiro é nove vezes maior que sofrer algum ataque violento na rua ou no local de trabalho”. (BID – Banco de Desenvolvimento/98).

“63% das vítimas de violência no espaço doméstico são mulheres. Destas, 43,6% têm entre 18 e 29 anos; e outros 38,4%, entre 30 e 49 anos. Em 70% dos casos, os agressores são os próprios maridos e companheiros.” (FIBGE, 1989).

“No Rio de Janeiro a violência em casa e os conflitos familiares são as causas alegadas por cerca de 60% das crianças que abandonaram as famílias para ganhar as ruas.” (Impelizieri, Flávia, 1995).

“80% dos abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes acontecem na casa da própria vítima”. (ABRAPIA, 2001).

“Em pesquisa realizada com 749 homens entre 15 e 60 anos, 51,4% declararam ter usado algum tipo de violência (física, psicológica ou sexual) contra sua parceira íntima pelo menos uma vez”. (Noos/Promundo, 2003).

A violência pode ser definida como  “o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação” (cf Organização Mundial da Saúde, WHO, 1996) e está relacionada aos valores culturais, às expectativas em relação aos papéis de gênero, às desigualdades sociais e ao abuso nas relações de poder.

Sem querer criar relações de causalidade, mas buscando a problematização da questão, podemos refletir de que formas  o microcosmo privado, ou seja, a família, pode reproduzir o modelo macrocósmico da sociedade e vice-versa.  Segundo Giddens (1996) “Existem paralelos notáveis entre o que parece ser um bom relacionamento, na forma desenvolvida na literatura de terapia conjugal e sexual, e os mecanismos formais de democracia política”, ou seja, o exercício democrático, a resolução de conflitos pelo diálogo e a capacidade de tolerância começam em casa – mas também em casa se reproduzem sistemas opressivos e abusivos encontrados na sociedade. Essa associação entre a público e privado, presentes em diversas manifestações da cultura  contemporânea nos fazem refletir sobre a importância de se enfrentar a questão da  violência intrafamiliar, especialmente em seus aspectos preventivos.

Um dos principais argumentos em favor da prevenção da violência intrafamiliar é a constatação  de que as situações de violência trazem muitas e pesadas conseqüências para o sistema de saúde, chegando ao ponto da 49a. Assembléia Mundial de Saúde, em 1996, ter declarado a violência como um dos principais problemas mundiais de saúde pública. Desta forma, ao vincular a questão da violência á área da saúde pública (e não só à segurança pública, como tradicionalmente ocorre), o foco se desloca para a prevenção, na medida em que se adota como ponto de partida a possibilidade de evitar o comportamento violento e suas consequências.

Ainda que se reconheça os avanços  no sistema de garantias e proteção de direitos como por exemplo, as Delegacias da Mulher e os Conselhos Tutelares, não há como negar as limitações no campo da repressão, normalmente focada apenas na figura do agressor e no mais das vezes incapaz de dar uma resposta adequada às necessidades das vítimas ou da família.

O  Relatório mundial sobre violência e saúde, publicado pela Organização Mundial de Saúde em 2002, recomenda algumas ações para a prevenção da violência familiar, dentre elas:  abordagem de apoio às famílias, envolvendo treinamento parental, visita aos lares, serviços intensivos de preservação da família (para aquelas em que se confirmaram os maus-tratos); serviços voltados para as vítimas, como o cuidado terapêutico diário, com ênfase no aperfeiçoamento das habilidades cognitivas e de desenvolvimento, terapia individual, em grupo e em família; serviços para crianças que testemunham violência, pois estas estão mais sujeitas a reproduzir este comportamento; serviços para adultos que foram vítimas de abuso quando crianças; educação continuada para profissionais da área de assistência à saúde e educação, relacionada ao reconhecimento e relato de sinais e sintomas antecipados de abuso infantil e negligência, bem como a introdução da matéria na formação destes profissionais; programas escolares para evitar o abuso sexual; campanhas de prevenção e educação e intervenções para mudar as atitudes e o comportamento da comunidade.

Algumas organizações têm desenvolvido práticas interessantes na área de prevenção, como por exemplo, as oficinas desenvolvidas pelo  Instituto Noos (Rio de Janeiro) para reflexão sobre o tema da violência  intrafamiliar voltadas para profissionais das áreas de segurança, justiça e educação, buscando, desta forma, construir uma rede comunitária para a prevenção da violência intra-familiar. Lideranças comunitárias e usuários de uma determinada unidade de serviço também estão entre o público-alvo dessas palestras ou oficinas de sensibilização, sendo que a  temática desses eventos pode não estar diretamente ligada à violência intrafamiliar, mas como forma de atrair  o público, estar voltada para questões mais abrangentes  como relações de casal ou familiares, paternidade, maternidade, questões de gênero, gerenciamento de conflitos,  ou seja, a introdução do tema da violência se dá pela via indireta.

Outras práticas, desenvolvidas pelo Instituto Noos  engloba ações voltadas para a vítima e à família, após avaliação do grau de vulnerabilidade, como grupos reflexivos e encaminhamentos para serviços complementares oferecidos por outras instituições, como grupos de mútua-ajuda para dependentes de álcool ou outras drogas, atendimento psiquiátrico ou de outras especialidades, apoio legal, programas sociais etc.

Os grupos reflexivos são espaços onde ocorrem conversas sobre temas escolhidos pelo grupo ou propostos pelos facilitadores. São utilizados, geralmente, alguns deflagradores de conversas para iniciar a discussão sobre o tema do dia. Esses deflagradores podem ser uma dinâmica corporal, uma dinâmica com técnicas narrativas, uma brincadeira ou outras possibilidades a mercê da criatividade dos facilitadores ou dos demais participantes. Podem ser oferecidos grupos reflexivos de gênero com homens autores de violência, com mulheres que vivem ou viveram situações de violência, além de grupos com crianças que sofreram maus-tratos, com adolescentes que sofreram maus-tratos e com pais e/ou responsáveis por essas crianças ou adolescentes. As atividades de grupo reflexivo de gênero podem ser utilizadas também como atividade de prevenção primária, quando, por exemplo, são oferecidos a jovens de uma escola, inseridos como atividade de complementação curricular.

O programa ainda capacita lideranças comunitárias para que as práticas possam atingir o maior número de  beneficiários, além de possibilitar que uma primeira ajuda ou orientação possa ocorrer dentro da própria comunidade. Daí a idéia de oferecer a comunidades algum apoio, geralmente na forma de conduzir ou facilitar reuniões, para que possam articular uma rede de solidariedade para as famílias que necessitem.

Tendo passado grande parte de minha vida profissional atendendo famílias em litígio, cujos conflitos revelaram muitas vezes uma dinâmica pautada na violência física e/ou psicológica, causando sofrimento e marcando para sempre os indivíduos, fica aqui minha sugestão para a cidade: um serviço voltado especificamente para as famílias em crise, com foco na prevenção da violência intrafamiliar e na promoção da autonomia e do diálogo.  A sociedade só tem a ganhar.

Fonte:www.noos.org.br

Simone Pligher

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Uma resposta para “Violência doméstica – Paz em casa, paz no mundo”

  1. Avatar Idair disse:

    Amei o texto. Trabalhei em sala com meus alunos, pois a violencia nas escolas está aumentando mto a cada dia. Bjs Até mais.

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