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Viver em Jundiaí

Publicada em 04/05/2014 às 10:29 | por Colunista Convidado

A qualidade dos espaços da cidade não são simplesmente cenários para cartão postal; sua sobrevivência depende muito da qualidade de convivência que estimulam. A convivência, por sua vez, exige uma constante repactualização. Se algo muda nesse espaço sem que se atente para seu uso, pode perder sua atração.

Quando uma cidade cresce demais, muito rapidamente e por migração, ainda que o povo que chega dê valor à qualidade do espaço existente, é preciso que se preste atenção em como se construir os novos espaços que serão exigidos, sem perder a alma que dava vida aos que ali já estavam. Será preciso que se criem lugares onde a solidariedade, em vez da competitividade, esteja presente.201405032048209253

É mais que uma construção bem feita, é um pacto. Por isso, entendemos que a função atual do planejamento da cidade não é a de controlar quanto e como se constrói, ou de impor restrições em altura, mas de gerar novos pactos que sejam capazes de construir a nova cidadania que os novos tempos demandam; isto é, a qualidade de espaço que estimule a convivência com empatia.

Esta pactualização será possível a partir das raízes dos lugares e da intenção de se construir uma totalização humanizada. A solidariedade que se pode construir no local será a base humanista para entendermos o outro. Tudo, nesse nosso tempo, parece se opor a essa intenção.Somos, cada vez mais consumidores que cidadãos e assim não iremos muito longe. Há que se voltar a acreditar nos homens de bem.

Já os tivemos entre nós, construindo viadutos com ajuda de comerciantes locais, rasgando avenidas sobre terrenos doados, montando caravanas suprapartidárias para audiência com governadores, construindo ginásios extraordinários com auxílio de vendas de cadeiras cativas. Essa etapa de nosso crescimento, como cidade, mostrou o valor de nossa gente e deixou marcas como as festas da uva no qual avanços na pesquisa vitivinícola aconteciam, na criação de nosso Instituto Experimental de Educação, no trabalho que redundou na criação de nosso DAE, e nas mais recentes demonstrações de cidadania como o trabalho para despoluir a bacia do Rio Jundiaí e as ações que levaram ao tombamento da Serra do Japi, entre outros exemplos marcantes.

Essas etapas em nosso crescimento mostraram a força da cidadania. É nossa marca. Sem ingenuidade,sabemos que os tempos mudaram, que “as demandas de status enfraquecem as demandas de direitos e o consumidor toma o lugar do cidadão”. Mas, se prestarmos atenção, veremos que nossas raízes ainda estão vivas.

Se o passado nos mostrou que nossa elite, nossos grandes empresários, sempre tiveram um “low profile” sem clubes especiais, misturados com seu povo,consequência de um modo de estar no mundo, hoje nossos jovens criam movimentos para recuperar a cidadania, porventura esquecida. Voltando ao pensamento do professor Milton Santos:

“O lugar é o que permite a união. É pelo lugar que revemos o mundo e ajustamos nossa interpretação.O espaço aparece como um substrato que acolhe o novo mas resiste às mudanças, guardando o vigor da herança material e cultural.” Esta me parece a responsabilidade maior do planejar espaços urbanos. Este poderá ser o caminho que nos leve a viver plenamente, uns com os outros.

Araken Martinho é arquiteto

artigo escrito no JJ

Colunista Convidado

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Uma resposta para “Viver em Jundiaí”

  1. Avatar Paulo Dutra disse:

    Vasco Venchiarutti. O último prefeito criativo, visionário e realizador. Depois Pedro Fávaro, o professor honesto, digno, do governo equilibrado e justo. E acabou. Depois disso a cidade foi virando um balcão de negócios e a máquina avassaladora da expansão urbana foi acelerando sobre áreas rurais, reservas verdes, recursos hídricos, patrimônio histórico. E nunca mais parou. Pedro Bigardi não mostrou até agora que retomará o controle e devolverá a cidade para seus habitantes. Mas segue tendo nosso voto de confiança, nossa esperança. As palavras de Araken parecem utópicas diante da fria realidade do consumo sobre o qual ele mesmo alerta. As iniciativas, poucas, de retomada da cidadania, mostram resultados consistentes, mas incapazes de reverter esse processo. Alguém se lembra que Jundiai é uma APA? O Plano de Manejo poderia ser um instrumento de apoio ou parceria do Plano Diretor. Mas se a cidadania não se apropria destes instrumentos, a tendência é que eles tragam um viés de cumplicidade com os setores imobiliários e especulativos. O recém criado conselho da cidade mostra que as elites locais, mesmo as intelectuais, continuam a ocupar os espaços destinados a democracia participativa. Se os espaços populares de governança participativa não são estimulados, não podemos enxergar novos horizontes na perspectiva da ocupação urbana solidária e sustentável.

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